quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Banheiro florido

Dias fechados os últimos por aqui, mas o perfume das laranjeiras do quintal que se espraia casa adentro é animador. A primavera se insinua, doce, provocando vontades adormecidas, devolvendo cores intensas à natureza e, aos humanos, uma aura de esperança, mesmo que velada ou inconsciente. Será Perséfone bailando na sua volta à luz, estendendo a mão a nos convidar para entrar na dança? Sigo outros passos, mas também ritualísticos, afinal, acredito que tudo em que se põe a mão com atenção e intenção tem lá seu pezinho na magia. E a magia nesse final de agosto tem sido a de alegrar também a casa, meio emburrada depois de meses hibernando. Então, uma das providências foi recauchutar o penduricalho de vasinhos do banheiro, trocando a fita e as flores. Seu aspecto desbotado e empoeirado há tempos incomodava, mas gosto por demais dele para passá-lo adiante. Aproveitei o desmonte e a nova montagem para fotografar e mostrar aqui sua "logística".
Usei 4 vasos de cerâmica bem pequenos, mas a ideia pode ser adaptada para modelos um pouco maiores. Cortei um pedaço de fita, dei dois nós na ponta e passei uma conta grande, maior do que o furinho do vaso.
Repeti o nó e a pedrinha, deixando uma boa distância entre um vasinho e outro, cuidando para que o espaço fosse o mesmo.
Colei florzinhas que sequei em casa, como sempre-vivas, lavandas, hortênsias trazidas da serra, até umas miúdas e redondas como pompom que enfeitaram a mesa nesse jantarzinho histórico aqui.
E assim que voltaram ao seu posto ao lado do espelho, vejam só quem veio lhes fazer companhia?
A kokeshi-pinça, presente fofo da amiga Jane, que com jeitinho de deusa sapeca contribui junto com o móbile repaginado para renovar o astral da peça (e o da sua dona, bonequeira por natureza, também).
Uma sexta-feira aquecida de belos projetos para o fim de semana a todos!

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Unidos pelo pão

Seu João, pai emprestado, ama enlouquecidamente fazer pão e venera sua máquina panificadora como uma entidade a quem se refere como um ser animado, parecendo ser dotada até de alma, tamanha a intimidade com que a trata. É mesmo do seu feitio adotar quem de alguma maneira fala a seu coração, como as pombas da praça, com quem se comunica através de um apito especial, com o qual as chama para as refeições na sua sacada. Com as formigas o papo é outro, mais de perto. Agachado, observa seus movimentos e relata com minúcias como elas se comportam e relacionam entre si, não podendo faltar também uma merendinha, um torrãozinho de açúcar, para alegrá-las.
Dono de uma vitalidade que dá um olé na sua idade, é um homem do lar, com todos os predicados que o posto exige: cozinha, lava, varre, tira pó e, o que mais lhe diverte, faz as compras diariamente em muitos vaivéns ao mercado, açougue, padaria, fruteira, aproveitando para abastecer também a despensa das vizinhas idosas com dificuldades de locomoção. O dia é curto para seu João, que levanta cedo e tem as horas preenchidas por essas tantas tarefas que lhe asseguram noites bem dormidas e a manutenção de sua saúde integral. A receita, hoje tão difundida, de manter a mente e o corpo ocupados para desfrutar de uma velhice saudável, seu João conhece desde cedo na prática, e é praticando sua sabedoria que garante seu contagiante prazer de viver.

Nas últimas semanas, uma novidade vem colocando fermento em seu entusiasmo culinário, e como a vida às vezes imita a sétima arte, assisto de camarote seu João incorporado de Julie Powell, imbuído tal a personagem do livro/filme do propósito de reproduzir um número X de receitas. Receitas de quê? Ora, o que poderia lhe desafiar dessa forma: pães!
Mas essa é uma história que teve suas primeiras cenas há alguns meses, num encontro rápido e certeiro, como costumamos ver nas telonas: amor à primeira vista. Aquecido pela notícia da vinda da amiga Laély ao Sul, nosso padeiro prontamente se escalou para preparar o pão do café de boa-vindas à minha hóspede. Caprichou ao máximo, e agradou em cheio a visita que adora pão caseiro. Dias depois, quando se encontraram, o papo dos dois feras em panificação já estava rascunhado: pão pra cá, pão pra lá, em pouco mais de uma horinha, os dois tinham traçado uma cumplicidade que só as grandes afinidades são capazes de justificar. E estava oficializada nova adoção no coração do seu João. Desde então, não passa semana sem que ele me pergunte: - E a guria lá de longe, quando volta? Ou faça profecia: - Ainda ganho na sorte grande e vamos ir todos lá na terra da guria! E foi a guria, mestra em levedar afeto, quem gerou o desenrolar do roteiro, presenteando o "velho" amigo de longe com o livro sobre pães, hoje sua maior relíquia, ao lado, é claro, da máquina venerada.
O almoço histórico que apresentou a dupla apaixonada em colocar a mão na massa, os quatro sorrisos revelando o contentamento pelo encontro
A missão logo passou a ser cumprida: testar as 72 receitas! E como tenho o mérito de ser a agente desse encontro, fui instituída como a degustadora dos pães que chegam ainda morninhos. Meu papel (de tamanho sacríficio...rs) também é o de relatar a experiência à Laély, conferindo uma espécie de nota a cada novo tipo de pão que vai saindo da máquina, sim, porque as receitas são próprias para a sua modernidade. Desde sábado, quando um pão branquinho e aerado (primeira foto) chegou aqui pelas mãos apressadas do seu João, e me desmanchei em elogios entre uma bocada e outra, outras ideias fermentam na sua cabecinha branca, mas isso é surpresa que corro o risco de perder o cargo de provadora se "der com a língua nos dentes".

No primeiro teste, um pão meio bolo, perfumado de laranja, para acompanhar o chimarrão do padeiro colorado

Se Julie encontrou novos e melhores rumos, internos e externos, na maratona gastronômica guiada pelo livro de Julia Child, seu João me relembra da necessidade de estarmos abertos para que os presentes, todos - alguns em forma de gente, outros embalados pela natureza, outros projetados pelas infinitas manifestações da beleza - cumpram sua missão: a de nos privilegiar com abençoados momentos de comunhão. A deles, deliciosamente sacramentada pela alegria da multiplicação dos pães. A minha, pela oportunidade valiosa de aprender com eles a promover milagres (e a fazer pães, habilidade culinária onde sou um zero à esquerda).

"Levei muito tempo para entender isso, mas o que realmente me atraiu no livro MtAoFC foi o aroma profundamente entranhado de esperança e descoberta da realização contido nele. Eu achava que eu usava o Livro para aprender a preparar comida francesa, mas na verdade eu aprendia a descobrir a porta secreta das possibilidades." (Julie Powell)

Atualizando - O comentário da Cecília, do Quilts são Eternos, chega para enriquecer o tema: "Tudo o que você contou serve para justificar ainda mais a origem etimológica da palavra `companheiro´: aquele que divide o pão com o outro". Não é lindo?! Gosto mais ainda agora da expressão sabendo da sua raiz. Obrigada, mestra das palavras!

sábado, 21 de agosto de 2010

Jantar custo(mini)mizado

Casal de amigos que não conhecia a casa, mas conhece os donos há mais de 30 anos, veio jantar ontem. E com tempo para pensar e organizar o encontro, dediquei parte das horas aos preparativos. Um luxo impraticável até semanas atrás, quando as sextas-feiras eram os dias mais puxados de trabalho. Sentindo-me então uma privilegiada, deliciei-me nas tarefas de ajeitar a casa, bolar e executar o cardápio. Gosto das filosofias que valorizam o estar atento ao agora, o colocar atenção em cada movimento e ação, sejam elas grandiosas ou tão pequenas e rotineiras que facilmente nos passam batidas. E enquanto montava o cenário e mexia em panelas, lembrei dos relatos que acompanhei durante a semana das amigas virtuais que se assumem "pão duras", econômicas, como a Cynthia e a Ana Medeiros. E relembrei do quanto fazer parte dessa turma "mão fechada" facilita também a minha vida, de como o "fazer chover com pouco" é exercício que não canso de treinar. Incorporada desse princípio, fui em busca dos meios para "customizar" o jantarzinho, botando fé que o fim (que as visitas se sentissem recebidas com alegria e carinho) justificaria o empenho.
No jardim castigado pelo frio rigoroso e ainda desfalcado de flores, abri um pouco mais os olhos e logo encontrei soluções para recepcionar os convidados com cor. As "bromelinhas" parasitas das árvores velhas são paixão antiga. Costumávamos enfeitar o presépio com elas quando criança. Eram vendidas pelo verdureiro na época de Natal. O Péia, uma vez por semana, estacionava sua camioneta abastecida de produtos de sua chácara e reunia as donas-de-casa da rua em volta num burburinho de conversas e pechinchas. Lembro que torcia para que sobrasse algum dinheiro à minha mãe depois de escolher legumes e verduras para levar algumas das lindas flores para o nosso pinheiro. Hoje elas estão ao alcance da minha mão assim que sopra um vento mais forte que as leva ao chão, não custam nada, mas pagaria para tê-las, sem dúvida, pela beleza tão singular da sua forma e combinação estonteante de tons. Rosa e roxo, as pequeninas também me lembraram outra preciosidade da natureza: os grandes ananás que a Laély mostra no seu post de hoje, com as mesmas cores. Confira aqui.

Acomodadas no suporte de madeira da entrada, recepcionaram os convidados com a elegância incontestável do singelo. E foram também alegrar a sala, junto com outros achados miúdos, alguns até malquistos, como a erva-de-passarinho (?), que se enrolou no pescoço do vasinho cor-de-rosa e inventou bossa para se casar com a rosa "achada" na calçada da vizinha. Na jarrinha, temperos também fazem bonito, como os pendões do manjericão e da sálvia, os botões perfumados da laranjeira, algumas poucas das também cheirosas e ainda raras lavandas, galhinhos de alguns "inços" e as bromelinhas.
E na mesa do jantar, as primeiras orquídeas, moradoras da goiabeira, dão o ar da sua graça, anunciando que a primavera não demora a chegar. Missão bem cumprida pelas meninas de diferentes espécies que devem saber do meu apreço por elas e da minha antipatia por todo o sempre pelas flores artificiais, de toda e qualquer qualidade. O "parecem naturais!" que agrada a tantos e a tão aplaudida praticidade das flores reproduzidas em tecido estão a quilômetros do que me seduz. Mil vezes os inços e os matinhos, vivos de verdade.
Vela é recurso tão lindo, tão significativo, tão barato, não pode faltar. Parmesão de verdade também não (no final das contas, ele sai mais em conta do que o queijo em saquinhos, faça as contas), se o cardápio é de massas. O queijo já ralado, não tão bom, entrou como segunda opção para o caso de preferirem a comodidade.
Louça com história também faz uma diferença e tanto. A tigela personalizada foi presente de casamento da tia Dada, e segue presente em capítulos especiais.
E o que tivemos para jantar? Talharim com ragu de carne. Ragu?! Molho de carne cozida no vinho por muuuuitas horas. Saborosíssimo e... muito econômico, não tem como não recomendar. A base da receita é assim: numa panela alta, frite cerca de 1 kg de carne de segunda (aqui no Sul, as mais conhecidas são chamadas de agulha e paleta) em pedaços grandes, temperados com sal e pimenta-do-reino. Junte 2 cebolas e 2 dentes de alho picadinhos, 1 lata de tomates pelados ou 6 tomates sem casca picados, 3 cenouras cortadas em pedacinhos, e refogue. Coloque 2 folhas de louro e 3/4 de uma garrafa de um bom vinho tinto seco (qualidade média a preço em torno de 10,00 a 15,00 está mais do que bom). Abaixe o fogo e deixe cozinhar por no mínimo 3 horas, acrescentado o restante do vinho e água para não queimar a carne e obter o molho. No final do cozimento, a carne está tão macia, que para desfiá-la basta usar dois garfos. Junte a carne desfiada ao molho, corrija o sal e sirva sobre o macarrão da sua preferência.

Uma outra opção, caso houvesse alguma rejeição à carne vermelha, foi uma versão de yakisoba improvisada com os vegetais da geladeira: alho-poró, ervilha torta, cenoura, refogados rapidamente, um grupo de cada vez, em azeite de oliva com a frigideira bem quente, depois combinados com iscas de frango e, no final, com penne (uma heresia, que me perdoem os orientais). Adoro o colorido que isso rende!
E o final feliz: mousse de chocolate branco com calda de maracujá. Receita preparada meio "no olho", desse jeito aqui: pique 1 barra (180g) de chocolate branco, coloque numa panelinha com 250g de nata (creme de leite fresco). Leve ao fogo baixo e mexa até o chocolate derreter, acrescente 2 gemas e cozinhe mais 2 minutos. Bata 2 claras em neve e junte 1 colher (sopa) de açúcar. Dissolva 3 folhas de gelatina sem sabor e sem cor ou 1 colher (sopa) de gelatina em pó sem sabor conforme a embalagem e junte às claras em neve. Por fim, misture delicadamente o creme de chocolate. Para a calda de maracujá, usei o suco de 3 frutas com 2 colheres (sopa) de açúcar e meia xícara de água e levei ao fogo por cerca de 1o minutos. Coloque a metade da mousse numa tigela e leve à geladeira até solidificar. Espalhe um pouco da calda e cubra com o restante da mousse. Devolva à geladeira e, antes de servir, cubra com mais calda e umas sementinhas. Para brincar de Nigella, esfarelei algumas bolachas de chocolate e polvilhei a primeira camada antes da calda.
Que muitas outras noites fartas movimentem a ciranda das amizades.
Que o "cordão dos customizadores" cada vez aumente mais.
Que o domingo seja do tamanho do que sonhamos para ele. Amém"

terça-feira, 17 de agosto de 2010

E o banquinho renasceu...

Depois de ser apresentada a essa ideia aqui pela Vivianne, do Decoeuração, há meses, e de muito namorar a proposta para os bancos velhos, de diferentes tamanhos, que fui arrecadando ao longo dos anos, finalmente hoje o projeto nasceu. Mãe bem orgulhosa, daquelas que dá uma voltinha e volta pra dar mais uma olhadinha na cria, sei que pela empolgação a moda pegou e vai virar febre.
Como sou indisciplinada para seguir tutoriais, fui encontrando soluções para a cobertura do banquinho com tecidos conforme o trabalho andava. Para o assento, recortei retalhos em tamanhos diferentes e montei o quebra-cabeça sobre uma camada fina de cola branca espalhada na madeira com pincel. Para não desfiar, reforcei a cola nas bordas.

Os pés e réguas foram cobertos com tiras um pouco maiores que a circunferência, para trespassar, e fixadas com bastante cola embaixo e também por cima, para o tecido aderir bem. Revesti o verso do assento com feltro, em outro quebra-cabeça, para acertar a distância entre os pés. Colei com cola quente, assim como a tira de pomponzinhos...
e os sapatinhos cor-de-rosa, que pediram e ganharam laço de fita, parecendo sapatilhas de balé.
Ainda não sei bem onde o recém-renascido vai morar. Por enquanto, acomodou-se ao lado da poltrona (parte das heranças que andamos recebendo de braços abertos e logo mostro), bem na minha mira, para poder curtir aquela sensação tão boa de que muito é possível se recuperar quando mãos, criatividade e paciência entram em ação (uma metáfora plástica que adoro reforçar).
Se a febre for contagiosa, sentir coceira nas mãos e topar a brincadeira de montar um patchwork em 3D, depois conta pra gente. Porque o melhor disso tudo é ver as ideias se multiplicando, como aconteceu com o bolo de maçã que a xará Rosana Remor, do blog Artes Remor, testou e aprovou. Lindas inspir(ações) a todos!

sábado, 14 de agosto de 2010

Com casca e tudo...


.... este bolo de maçã, uma receitinha vapt-vupt, é o máximo que a conexão lerdíssima via Oi me permite e fica como sugestão para adoçar o domingo.

Ingredientes: 2 xícaras de farinha de trigo, 1 e meia xícara de açúcar, meia xícara de óleo de canola ou girassol, 3 ovos, 2 maçãs grandes, 1 colher (sopa) de fermento em pó, 1 colher (sopa) de canela em pó, 1 pitada de sal Como se faz: Lave bem as maçãs e descasque-as, reservando as cascas. Corte a polpa em cubinhos e regue com suco de limão. Bata no liquidificador os ovos, o óleo, o açúcar e as cascas de maçã. Peneire a farinha com o fermento, a canela e o sal. Junte a mistura do liquidificador mexendo bem. Acrescente os cubinhos de maçã. Coloque em fôrma pequena, untada e enfarinhada, e leve para assar em temperatura média por cerca de 40 minutos. As cascas reforçam o sabor da fruta e o bolo fica com massa umedecida pelos pedacinhos da maçã....hum...

Presentinho lindo...

... recebi esta semana da Chris, do Sweetblogchria, com a delicadeza estampada em cada detalhe, marca inconfundível do trabalho primoroso da Chria.

Mimada assim, tem como não ser feliz? Nem a incompetência no atendimento do suporte da Oi consegue nublar a alegria perfumada trazida nesse envelope fofo.

Um belo domingo a todos!

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Velinhas e almofada...

... para a tia Dada, que comemorou a chegada de mais um trecho da sua trajetória que se aproxima da marca dos 90! em grande estilo, em dois tempos, como merecem os vencedores que entram em campo com determinação de fazer bonito. Bonita celebração no sábado, na Villa A´Assisi, com direito a cupcake-surpresa.
E quem diz que tem tempo feio para quem tem alegria de viver? No domingo, subimos à serra entre nuvens para cantar mais um parabéns e celebrar a grande bênção de tê-la nos inspirando em todos os momentos, torcendo, apoiando, incentivando a cultivarmos...

bons sonhos... pensamentos floridos...
O presente confeccionado com um dos tecidos que ganhei da Cecília e da Helena teve a preciosa colaboração da Susi, do Copy&Paste, que num dos seus achados sempre tão encantadores, mostrou essas rosas feitas com tirinhas de malha de algodão aqui. O PAP é excelente, e mesmo na primeira viagem a marinheira conseguiu um bom resultado. Rápido e fácil, me entusiasmei com a técnica, e quero plantar outras rosas em quadrinhos, bolsas, mantas... (um perigo às camisetas do armário! rsrs). Inspirem-se também!

sábado, 7 de agosto de 2010

Ao meu crafter pai

(foto: getty images)

Minha mãe conta por toda vida, com orgulho estampado nos olhos, que entre tantas habilidades, meu pai também tinha "vocação" às artesanias e inclusive colaborou em várias peças do enxoval. Mas, naquele tempo, isso era um segredo de estado. Enquanto namoravam na sala, ela bordava a toalha numa ponta e ele, noutra. Sentavam estrategicamente de maneira que no primeiro movimento próximo, ele largava a sua parte sobre o sofá e fazia "cara de paisagem" assim que meu vô aparecia. Garantia dessa forma sua imagem de homem viril, e o futuro sogro, com certeza, admirava a cena meiga da noiva bordando enquanto o noivo, bem comportado (e ai que não o fosse!), pensava em "outras coisas".
Mas ele não jogava a toalha, e assim que o "fiscal" dava as costas, voltava aos pontinhos da pintura de agulha que iam preenchendo o tecido e desenvolvendo sua sensibilidade.

(Seria um amor-perfeito que eles bordavam a quatro mãos no presente projetando o futuro? Imagem Google)

Outra cena muito lembrada na história do casal arteiro, e que também não tive a alegria de presenciar, pois eu ainda era um plano futuro, é a de uma famosa saia godê que ele, sentado no chão, cortou e depois costurou para sua amada. Dizem que era um arraso quando ela desfilava pelas ruas leopoldenses exibindo a peça de grife exclusiva, com sua cinturinha de manequim, como gosta de frisar.(rs)
Tenho uma memória péssima, mas catando daqui e dali nas gavetinhas da infância, encontrei a imagem desbotada do moço prendado tricotando um blusão verde (ou azul?) petróleo, com suas mãos grandes e unhas roídas, num ponto que a cada carreira mostrava os losangos se encaixando com perfeita simetria. Por muitos invernos, ele o aqueceu, e observando com olhos de criança, lembro que me perguntava como era possível fazer geometria com fios de lã.
Para sua princesa, eu!, fez o mais lindo quebra-cabeça com o mapa do RS e suas regiões recortados em madeira, com serra tico-tico, e depois coloriu com tinta no maior capricho. Maior orgulho não poderia sentir uma filha quando levou à escola para mostrar aos colegas e professora e ela, entusiasmada, utilizou como recurso didático em uma de suas aulas de geografia.
Imagino a cumplicidade que as manualidades partilhadas teceram na vida dos meus pais.
Imagino o encantamento da minha mãe por um homem que desafiava as regras e partilhava do nicho criativo do seu universo feminino.
Imagino, porque não recordo, como ficávamos próximos quando, sentada no meu banco ao seu lado, contava junto as voltas dos finíssimos fios de cobre que pacientemente ele enrolava para bobinar motores.
Se ele passou tão rápido por aqui, com o coração derretido muitas vezes reconheço nas mãos de seus dois netos, que por uma ordem do tempo não cruzaram com o vô Ruy, a continuidade do seu ser sensível, habilidoso, metódico, apaixonado pelos processos criadores.

Vicente entre as panelas , praia que o vô não surfava, mas com o mesmo perfeccionismo...

Bruno em diferentes motivações que envolvam cortar, colar, pintar, montar, costurar...

E também nas mãos gêmeas das dele do meu irmão, prestativas e eficientes em qualquer tarefa engenhosa.
E milhares de vezes nas minhas, que me dão o norte e fincam as estacas do que me envolve de prazer e me põe de pé em defesa da beleza da vida. A herança mais preciosa, um bem de raiz que se perpetua pelos vínculos eternos do bem-querer.

Para o meu pai, o presente é um Ho'oponopono, que acredito irá encontrá-lo, quem sabe hoje, vovozinho, tricotando em alguma nuvem:
Sinto muito, me perdoa, eu te amo, sou infinitamente grata!
(Para conhecer ou saber mais sobre essa técnica de cura emocional havaiana, clique aqui e se conecte com os amigos do Via Tarot.)


Amém!

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Sinais de fumaça...

... das chaminés dos fogões e lareiras anunciam que a tão aguardada neve chegou ao Sul, ponto alto do inverno gaúcho, na congelante noite passada. Mais uma vez, o antigo desejo de ver o espetáculo fica dormindo na gaveta dos sonhos, porque se vivo num "eterno domingo" nessa nova rotina mansa, em volta, o "povo" de perto segue com suas agendas lotadas de um sem-fim de compromissos. Quem poderia se dar ao luxo de subir à serra em plena quarta-feira de trabalho?... Então, fico por aqui, feito ostra, plagiando a amiga Taia, rastreando as novidades climatológicas à distância...
enroupada como a chola no meu baú, faltando apenas o chapéu (que me lembrou dessa outra amiga aqui desfilando com um bem parecido)...
e com os pés sobre a bolsa de água quente para ressuscitarem do estado "picolé", vestidos das meias tricotadas há muitos invernos pela amiga Susi. Susi que veio da terra da neve intensa, do fondue, chocolate e canivetes famosos, que ama o verão tropical e garante que nevasca é muito linda como acontece no Rio Grande, por tempo curto, porque mais do que isso é ideia romanceada (será?) vendida nas telas, páginas, fotos... Seriam as violetas-dos-Alpes propaganda enganosa, Su? Viradas do avesso, essas meninas que já nascem "do contra" e logo mudam as regras do jogo, curvando-se e movimentando suas pétalas para o alto em pose de rainhas, enfrentam o frio sem perder a elegância, honrando suas raízes europeias, e me encantam.
Honrando pouco minha origem, "apanho" para fazer um fogo, mas "fumegar" é preciso, mesmo que a neve esteja a 100 km...
mais ainda quando o gás termina já quase madrugada, o botijão reserva está vazio e os pudins para a festa da sobrinha precisam cozinhar... Final feliz para a sobremesa que teve calma, passou a noite em banho-maria e terminou de assar no forno do fogão na manhã seguinte.
Sinais (evidentes) de fumaça, que não me incomodam nenhum pouco, estão por todos os cantos da casa, nas roupas e nas invenções dos últimos dias, como nas almofadas que aquecem a vontade de crochetar, costurar, pintar...
e lembram dos ciclos: a estrela de lã, tão convidativa a um abraço nesse invernão, e a fada de seda (nascida numa fase curta de entusiasmo pelo trabalho "trabalhoso" da pintura em seda e costurada nesta semana), tão suave e geladinha, à espera de um colo no verão. Entre elas, a menina feliz, incorporada de primavera. Todas, devidamente defumadas, incluindo-me (rs)...
e o Bibi, que mesmo com seu casaco de pele, busca refúgio nos lugares mais inusitados, de preferência as sacolas, paixão sua em todas as estações.
E sigo por aqui rezando a mesma reza de muitos gaúchos: Que não me falte lenha, nem teimosia para continuar amando o inverno. Amém! (Aguardo sinais de fumaça daí... rs)

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Mestre que é mestre...

... semeia em nossa vida bons ensinamentos, por teoria, conhecimento, mas sobretudo por belos exemplos. Assim é com a Nilda, minha mestra e madrinha no aprendizado de "mandalar". Privilégio dos grandes conviver e poder se inspirar pela sua arte e sua postura íntegra e sábia na lida com os caminhos da existência. Se hoje se apregoa a necessidade do desapego, para que se abra espaço ao novo, e acredito nessa lei de movimento ou estagnação, há semanas acompanho o desenrolar de uma decisão sua exemplar de doação. Com entusiasmo, aos poucos foi dando forma à Exposição de Desenhos - Retrospectiva, um acervo montado em mais de duas décadas, que inaugura na próxima quinta-feira, dia 5, às 18h30, na Villa D´Assisi (espaço que comentei aqui quando encontrei com a Cecília).
Os trabalhos, quase 30, de diferentes fases, técnicas e temáticas, estarão à venda a preços muito razoáveis para facilitar a aquisição e garantir que a renda recolhida seja satisfatória à causa que motivou a mobilização e despreendimento da artista: uma verba extra para a Associação Pandorga, aqui da cidade, que dá assistência a crianças e adolescentes deficientes, a maioria, autistas. Para conhecer a instituição, sem fins lucrativos e do maior gabarito no atendimento, clique aqui.
Confira o que reserva aos que visitarem a mostra pela sensibilidade de outra mestra, professora de Literatura lá dos tempos do ginásio, que faz a apresentação no convite num texto primoroso, confirmando que os "feras" se entendem:
(clique na imagem e transporte-se à alma de Nilda pelas palavras de Elvira Hoffmann)

Então, para quem é de perto, fica o convite para se juntar a nós na quinta-feira à tardinha, para curtir a beleza plástica, a beleza da iniciativa, a beleza também da música na apresentação do Quarteto do Museu, que deu corda à boa-vontade e engajou-se na causa. Quem sabe, a beleza também passe por encontros com quem passa por aqui e poderemos trocar abraços. Será uma alegria grande!
E para quem é de longe, que respingue por aí a energia gostosa dessa super(ação). Amém!

A exposição fica aberta à visitação até 5 de setembro, das 15 às 24h, na Villa D´Assisi, na Avenida João Correa, 896, esquina Rua Marquês do Herval, São Leopoldo, RS.