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domingo, 21 de abril de 2013

O toque da borboleta


O outono mostra sua generosidade no quintal, tanto nas poucas mas carregadas laranjeiras, como nas roseiras, ou melhor, na única que, sabe-se lá por quê, não atrai as danadas formigas cortadeiras. Sem falar nas borboletas, muitas e de diferentes tipos que bailam da manhã à tardinha, sempre me chamando para caçá-las em cliques que exigem paciência e tempo. Mas, como para toda regra, uma exceção, e provando que a vida, por mais rotineira, tem lá suas surpresas que volta e meia nos tiram o fôlego, dias desses uma criaturinha alada mostrou-me a força do imprevisível. Descansando no varal, avistei-a de longe e fui chegando de mansinho para tentar fotografá-la. Pareceu-me tão calma, que arrisquei aproximar a mão, contendo até a respiração para não assustá-la. Logo a bela foi-se chegando, chegando, e como milagre, escalou minha mão e ali repousou, confiante, enquanto meu coração disparava de alegria e a vontade era dúbia: silenciar profundamente para sacramentar o encontro e, ao mesmo temo, gritar para mostrar o feito a todos. Não foi preciso. Passada a euforia do primeiro instante, senti que poderia me movimentar e levá-la para passear por dentro de casa para exibir o troféu. 
Minha mãe alardeou: Isto é sorte! Sim, sim, respondi convicta. Tirei a sorte grande! 
Guardei  essa certeza da experiência tão rica em significados numa gavetinha especial da memória. Quando menos se espera, o que sempre desejamos muito cai nas nossas mãos. Talvez como prêmio, talvez recompensa, talvez a tão marqueteada lei da atração, ou simplesmente, como diria o poetinha Quintana, que já deve estar cansado de tanto ver seu recado circulando pelos caminhos virtuais, mas que nesse momento, sorry, impossível não lembrar: "O segredo é não correr atrás das borboletas... É cuidar do jardim para que elas venham até você".
E de um degrau da maturidade que se conquista dia a dia, muitas vezes a duras penas,  reconheço que a indigesta impossibilidade de correr compensou-me com uma boa capacidade de contemplar. Tenho olhar "comprido", especialmente com a natureza, e com a graça dos céus, mente e coração que se alimentam dessas visões de beleza feito borboleta com seus néctares.
Que os milagres do cotidiano nos toquem e retoquem com leveza nossos espaços densos. Amém (em coro com a algazarra das maritacas no alto do pinheiro do jardim). 

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Maio e seus prazeres

Como tão bem declara minha amiga Anelise Bredow no seu calendário, "certos prazeres só se colhem com inocência. Ou espanto!". Não definiria melhor a impressão que tenho do mês de maio, das sensações suaves mas intensas que me traz a época onde o outono mostra sua beleza por inteiro. Lembro desse estado meio encantado ainda criança e agora, quanto mais coloco os dois pés na meia idade, maior fica minha preferência escancarada pela meia estação.
Maio me devolve uma certa inocência, e só por isso ele já mereceria ser meu "queridinho". Por medo de perdê-la, faço uma festa dentro de  mim quando alguma coisa no ar anuncia que aquela alegria genuína será despertada. Tão difícil descrever como esses pequenos estados de graça se desencadeiam, e a faxina que fazem nas áreas embaçadas por aflições, cansaço, desânimo. Quem cultiva-se inocente tem mais chance de manter a esperança agarradinha ao coração. E, só assim, acredito ser possível, vez que outra, ser tomado por relâmpagos de espanto, uma dádiva que nos devolve por instantes à criança pura e curiosa que fomos. Uma viagem rápida que enche o tanque de um misterioso entusiasmo e garante combustível para mais um bom trecho da estrada.
Capturei imagens de alguns desses momentos significativos, todos aqui  na rotina do meu reduto, onde me empenho (às vezes a reboque) a ser sentinela da vida que pulsa, a  despeito da mesmice que possa ser vista na superfície.
O jardim se renova na mesma intensidade da primavera. E entre os recém-renascidos, a arvorezinha que desconheço o nome exibe sua mágica: as flores desabrochadas bem branquinhas que mudam de cor conforme se fecham. Não sei o que é mais lindo, se a flor alva com seus pistilos amarelos, lembrando hibiscos, ou o botão fechadinho colorido de cor de rosa. Conhece, Fabiano?
Para meus sentidos, o ritual de preparar doce em calda é passaporte certo para pisar no território da ancestralidade. No caso da abóbora, a pergunta que acompanha o passo a passo é a mesma desde menina, quando via a mãe às voltas com a química da coisa: como alguém, algum dia, pensou em colocar cal para a casquinha ficar firme e o miolo macio? Salve o gênio dessa ideia crocante!
E não é que aqueles pezinhos quase esquecidos de crisântemos miúdos resolveram mostrar sua força?
Honrando o mês das noivas, casamento a vista! Vou levar esta mandala no cinto, bem exibida com a solução caseira bordada às pressas.
A ísis também quis se exibir na semana passada. Uma passadinha rápida de apenas um dia, mas de grande esplendor. E eu ali fotografando e dando serviço aos meus botões: e se ela vivesse por meses me causaria o mesmo frenesi? A possibilidade da perda iminente, em todos os reinos, sem dúvida potencializa a admiração, o afeto, a gratidão.
E maio é também mês pra dividir o soprar velinhas com o irmão também taurino, agora também cinquentão. Uma noite feliz por tantos motivos: pelo melhor irmão que a vida poderia ter me presenteado, pela comemoração no restaurante do filho, pela companhia tão desejada da nossa mãe... Uma curtição modelá-lo como um cartum.
E elas, os bandos, sem exagero, que me chamam para fora, que me tiram da toca e  hipnotizam com seus bailados, rasantes, pousos ... É sagrado, em dias ensolarados, que a melhor sobremesa é sentar quietinha no quintal e pegar carona nesses movimentos que tanto me dizem. A  única forma que sei meditar.
Que o cardápio de maio ainda reserve a todos nós outras belas surpresas! Amém.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Para marcar o ano com arte e amizade

Meu fevereiro ganhou uma companhia muito especial: Frida Kahlo, que divide comigo um pedaço relevante da sua e da minha história. Nós duas contraímos poliomielite na infância. É interessante como o sofrimento "compartilhado" cria uma cumplicidade estranha. Saber que vivemos situações semelhantes, por si só, gera tamanha proximidade, que basta ver sua imagem para perceber uma compreensão profunda no seu olhar. Sei que ela conhece a zona de desconforto que os diferentes experimentam com os dois pés conforme precisam caminhar pela vida, muito mais nos primeiros passos. Sei também que sublimamos muito da nossa limitação nos fixando nas borboletas. Se ela estampou uma revoada delas no gesso que cobriu seu corpo depois que o destino dobrou sua dor (o terrível acidente que a sequelou para sempre), na falta do brilhantismo do seu talento, também eu sigo perseguindo as criaturinhas aladas fotografando-as, observando-as nos detalhes, explorando-as ao máximo nas manualidades, muito antes de invadirem a moda e o gosto popular.

Sim, Frida, "para que preciso de pés, se tenho asas para voar..." Esse é o mantra que salva da amargura. Nem sempre na ponta da língua, mas sempre à disposição num cantinho da alma quando o "bicho pega".
O belíssimo calendário é presente de outra mulher forte, sensível e sábia, também dona de um território de arte fértil. E porque os afins acabam por se encontrar, assim que organizei as fotos, me encantei em ver a linha das afinidades registrada no concreto.
Anelise também ama as borboletas.

Talvez também encontre nelas a porta de saída para essa realidade paralela que nos ampara para viver com mais atenção. Como disse tão bem a Jô, do Arte Amiga, "a gente precisa sair do automático para aproveitar nossos dias". A arte é aliada fiel nessa empreitada, não tenho dúvidas. E também para nos conectar com a espiritualidade genuína, independente das crenças ou religiões.


Obrigada, Ane! O cartão também vai para a parede com a proposta de treino diário.

A cada novo mês, assim que virar a folhinha, mostrarei para os amigos do Amém.

Que a beleza deixe suas marcas no nosso tempo. Amém.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Criancices (1)

A menina que fui pede licença para celebrar o Dia das Crianças em capítulos, um por dia, até a terça-feira. Convida a criançada de "todas" as idades que passa por aqui para pegar uma carona e dar uma marcha à ré no tempo. Um exercício divertido e, talvez, terapêutico para todos nós. Desatar alguns nós da "adultice" e deixar que os olhos da nossa memória sinalize o que nos fazia felizes, quem sabe trace também atalhos para dar uma polida na alegria de viver. Torço por isso.
Então, a primeira investida da menininha lá de trás não poderia ter outro mote senão as criaturas aladas que desde muito cedo me transportam para uma atmosfera de encantamento. Lembro que desenhar borboletas, colori-las, folhear livros sobre elas eram momentos tão intensos de mergulho numa bolha de beleza, que sumia toda e qualquer tristezinha dessas que sentem as crianças por tantos motivos. Poder tocá-las, então, seria tão espetacular, mas a razão insistia em puxar os pés à realidade, avisando: melhor nem sonhar esse sonho impraticável... Mas quem diz que se segura sonho que pede pra ser sonhado, hum? E quem determina a espessura da linha que separa o possível do impossível? Pode ter demorado um pouco, umas 50 primaveras, mas para o êxtase da menina que me acompanha, neste setembro encontramos f-i-n-a-l-m-e-n-t-e! a mansa e dengosa borboleta que gosta, e muito, de carinho. Fazer cafuné nas asas de uma borboleta entra triunfantemente na lista dos desejos realizados e, com letras brilhantes, no meu currículo, como prova viva e entusiasta de que sim, Einstein tem razão: "Há uma força motriz mais poderosa que o vapor, a eletricidade e a energia atômica: a vontade", como acaba de lembrar por e-mail a doce amiga Teresa. Quer conhecer essa outra menina sonhadora? Clique aqui para pousar e se deliciar no Se essa lua fosse minha.

Quer me contar sobre seus sonhos infantis? Será uma alegria sem tamanho.

Um sábado leve e livre para todos nós! Amém!

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Um panapaná no meu jardim!

Há semanas ensaio um manifesto em defesa das belezas do outono, aos meus olhos tão injustiçado pelo clichê das folhas mortas e retorcidas pelo chão e árvores nuas e desprotegidas. Os que frequentam o AMÉM sabem da minha preferência marqueteada pelo frio, tudo pela incompatibilidade absurda com o verão. Sofro na pele e no humor com os dias escaldantes desse Sul cada vez mais destemperado. Então, depois de meses de inadequação e desassossego, volto pra casa quando lá por abril as temperaturas começam a ceder. Dizem que o que identificamos no externo é espelho das nossas matrizes internas. E a afirmação, na qual confio, acaba me gerando uma certa insegurança: será que todos esses encantos que pulam às minhas vistas por tantos cantos do meu jardim e dos lugares por onde passo são reflexo do meu astral, miragens criadas pelo deslumbramento com a estação que anuncia a temporada gelada nessa ponta do país? Dia desses me atrevi um pouco mais, e depois de muito observar a paisagem pelas janelas por puro deleite, anunciei à comadre que o outono, além de ser tão esplendoroso quanto a primavera, tem muito mais borboletas que a badalada estação das flores. Se queria impactar, até que consegui um pouco. Mas como a comadre é jardineira desde sempre e conhecedora e estudiosa das coisas da terra desde sempre também, tratou de analisar a questão sem prejulgamentos. O pode ser ficou no ar, o que já me conferiu um gostinho de vitória. - Se quem entende tanto da natureza deu ouvidos a minha humilde (mas firme) constatação, acho que não estou viajando tanto assim... - continuo pensando a cada nova cena com as criaturinhas aladas que fazem festa bailando, cada turma do seu jeito, assim que o Sol dá as caras depois da neblina do amanhecer ou dos dias de chuva.
No último domingo, ensolarado, a Grande Mãe, que adora surpreender, resolveu me dar uma forcinha na tese. Usando seu talento com preciosismo, montou uma cena de dar inveja a muito roteirista. Chamou um panapaná* usando como isca a bromélia nativa, presente da comadre há alguns meses e que acabara de fazer florescer pela primeira vez um pendão de gominhos amarelos, entumescidos e pintados de marrom nas pontas, entre as folhas viçosas.
As estrelas do set, feito formiguinhas, rapidamente avisaram as companheiras sobre o tesouro doce, e desde então, a família multicolorida, combinando suas cores com as da flor, brincam de mimetismo e me convidam a brincar de adestradora de borboletas...
enquanto se banqueteiam do mel raro a um palmo da câmera, mansas...
e fazem as melhores poses, sem pressa, sem medo, que todo fotógrafo sonhou ter na sua mira. À volta, muitas outras, de outras tribos e outros comportamentos, passam voando sem mostrar nenhum interesse pelo "achado" das amigas. Pousam rapidamente nas bougainvilles, fazem um lanchinho estilo fast food nas tajetes, descansam ao lado na begônia... E eu, sentada na grama, embevescida, cliclo, clico, clico... o panapaná... e agradeço, agradeço, agradeço... Amém!

* Panapaná: Meu sobrinho Bruno falou sobre a aula de coletivos, e ficamos lembrando de um, e de outro, e mais outro... Dias depois, descobri neste post aqui que, apesar da minha devoção de toda vida às borboletas, jamais ouvira falar no seu coletivo. Panapaná, pelo dicionário, não é considerado coletivo, mas a designação de origem indígena a um bando de borboletas que aparecem em determinada estação.