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Confesso, já ouvindo a vaia ao fundo, que a primavera não é minha estação queridinha. Perde de longe para o outono, que anuncia o inverno, por quem morro de amores, mostrando o quanto sou gaúcha de corpo e alma (rs). Mas gosto muito da troca das estações que vai marcando o andar do tempo e os milagres da natureza. Da primavera, curto essa motivação que ela gera no coletivo, como uma onda que devolve a alegria infantil pela promessa de dias mais intensos em cor, luz, aromas. Tenho a impressão que se propuséssemos aos adultos desenhar a estação mais amada e marqueteada, teríamos uma coleção das clássicas cenas da casinha rodeada de flores, os dois morros no horizonte e o sol nascendo atrás deles. E só por isso ela merece mesmo ser saudada com honras de gala.
Por uma conjunção, talvez astral, a entrada da primavera foi marcada com dois rituais singelos com a cara da estação, registros lá de trás que me trazem sensações muito boas. Morangos encontra-se atualmente em qualquer época do ano, mas quando era menina, só davam o ar de sua graça lá pelo final de setembro. Que festa quando o verdureiro estacionava sua camionete e avistávamos de longe as caixinhas de papelão recheadas das frutinhas mais esperadas! Miúdos, vermelhinhos por fora e por dentro, doces, colhidos no pátio da figura grandona, folclórica, nos proporcionavam o melhor lanche da tarde. Batidos com leite bem gelado, parecia milk-shake com aquela espuminha cor-de-rosa, coisa só namorada em revistas. Fico tão entusiasmada quando chega a sua safra, que a sou a primeira a comprar os kits com 3, 4 bandejinhas dos meninos que vendem nas sinaleiras. E me sinto realmente rica com tamanha fartura. Então, munida dessa riqueza, vem a segunda parte bem boa da história: sair à cata do que fazer com eles. E foi nessa procura por uma receita diferente das sempre certeiras, mas já batidas, que não sei de onde lembrei das bombas, outro ícone da cozinha imaginária da minha infância. Em dias bem raros, tínhamos o deleite de fazer o melhor programa que a cidade oferecia em termos de doces. Nos produzíamos com a roupa mais bonita para lanchar na Confeitaria Central. Ainda sinto lá no fundinho da memória o cheiro delicioso que recepcionava os fregueses já na calçada. Uma mistura de doces assando e salgados fresquinhos, aliás, esse era o maior trunfo do point tradicional: tudo feito no dia, tenro, com ingredientes de primeira e, sem dúvida, mãos de fadas que trabalhavam longe dos olhos da freguesia. Sonhava conhecer aquela cozinha, descobrir seus segredos... Mais tarde, o programa se repetiu como primeira escolha do filho menino. As segundas-feiras eram sagradas para o passeio com a vó Lili, dia de folga das cabeleireiras, e o destino foi aprendido desde o carrinho de bebê. Muito conflito na hora de fazer o pedido na frente do balcão recheado de tantas gostosuras, mas pra não me arrepender, acabava na "bomba" de chocolate, e o filho seguia o exemplo. Não me arrependo até hoje: as melhores bombas do mundo dividindo o ranking com as melhores mil-folhas! A confeitaria fechou, deixou saudade em muitos, quem sabe contribuiu na escolha profissional daquele menino que adorava suas gostosuras e voltou a ganhar vida nas horas da semana passada em que passamos perseguindo a receita das bombas, mais conhecidas fora daqui por carolinas. Depois da primeira experiência mal-sucedida, o outro menino que hoje me acompanha nos programas gastronômicos me convenceu a arregaçar as mangas e começar tudo de novo. E, dessa vez, deu certo! A receita é esta aqui , super aprovada. Só inventamos no recheio, acrescentando, é claro, morangos. |
segunda-feira, 24 de setembro de 2012
Bombas e palmas para brindar a primavera
quarta-feira, 19 de setembro de 2012
Temporada de bolos em tempos de chuvaradas
Como essa é uma casa de boleira (aposentada), receita que mais gosto de experimentar é de bolo, seguida logo atrás de biscoitos, grande paixão. Dessa vez, finalmente reuni os ingredientes do Bolo de maçã com farofa de coco, da musa Rita Lobo, do consagrado Panelinha, que dispensa apresentações, mais ainda agora, com seu programa no GNT. Infelizmente, a série nas últimas semanas está reprisando, mas tenho fé que uma nova temporada está por vir. Essa é do livro "A conversa chegou à cozinha", que reúne crônicas e receitas numa demonstração clara que os criativos, na grande maioria das vezes, navegam bem por diferentes canais, sejam eles gastronômicos, das artes plásticas, da literatura, da música, do universo craft... A bela Rita, além de fazer bonito na frente das câmeras fotográficas e da tevê, domina com elegância e simplicidade panelas e palavras, e isso me encanta. Transcrevo o capítulo delicioso:
"Um bolo para Ane
Este bolo de maçã com farofa de coco é uma receita que ganhei da tia Cristina Ferraz. Digo ganhei porque sempre acho que boas receitas são como presentes. Espero que a Ane também goste!"
Para a farofa
1/2 xícara (chá) de açúcar
1 xícara (chá) de nozes picadinhas
1/2 xícara (chá) de coco ralado
1 colher (chá) de canela em pó
Modo de preparo
Numa tigela, misture bem todos os ingredientes. Reserve.
Para massa
2 xícaras (chá) de farinha de trigo
1 colher (chá) de canela em pó
1 pitada de sal
1 colher (chá) de bicarbonato
1 colher (chá) de fermento em pó
2 xícaras (chá) de açúcar (reduzirei para 1 1/2 na próxima vez)
1 colher (sopa) de suco de limão
2 colheres (sopa) de conhaque (usei cachaça)
4 maçãs-fúgi grandes
2 ovos
1/2 xícara de óleo
1 colher (chá) de essência de baunilha
1. Unte uma assadeira retangular com óleo e polvilhe com farinha. Reserve. Preaqueça o forno a 180 C (temperatura média).
2. Coloque a farinha, a canela, o sal, o bicarbonato, o fermento e metade do açúcar numa tigela, passando por uma peneira. Misture bem.
3. Descasque as maçãs, corte na metade e retire as sementes. Corte as metades em cubinhos. Transfira para uma tigela e misture o suco de limão, o conhaque e o açúcar restante.
4. Numa tigela grande, bata os ovos com um garfo. Acrescente o óleo e a baunilha. Nesta mistura, junte as maçãs e a farinha. Misture delicadamente.
5. Transfira a massa para a assadeira preparada. Espalhe a farofa com as costas de uma colher de sopa.
6. Leve ao forno preaquecido para assar por 25 minutos. Retire, cubra com papel-alumínio e continue assando por mais 20 a 25 minutos. Depois de frio, corte em quadradinhos.
Sirva com
Creme chantilly ou sorvete de creme. (servi com coalhada)
Que este seja também um presente para os amigos do Amém, que adoçam minha vida, faça sol ou faça chuva. Amém.
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
Costurar, bordar, crochetar, recortar, colar...
Eis a receita descoberta ainda criança e desde lá seguida à risca para não "pirar". Na companhia de linhas, agulhas, tecidos, mais fácil fica lembrar que a vida segue mostrando sua beleza, todos os dias, mesmo quando o céu fecha a cortina e aqui embaixo precisamos fazer um esforcinho maior para lembrar que o sol mora sempre lá, soberano, bem no alto, onde nossos olhos nem sempre conseguem ver.
A outra comecei a crochetar o miolo pela estrada afora, na volta de Garopaba. Depois foi só fazer um fuxico gigante, recheá-lo com manta acrílica e costurar a mandala colorida no centro. Fiz também uns biquinhos de crochê em volta, para modelar melhor a peça e dar um arzinho ainda mais de vovó.
Para completar o canto do crochê, o xale trazido da praia no encosto do sofá e a primeira almofada crochetada aqui. Porque gracinha chama gracinha, a boneca vintage volta e meia recebe a companhia dessa outra fofura, que se encarrega de "enfeitar" as almofadas com seus pêlos branquinhos. Nada que boas sacudidas (nas almofadas! rs) não resolvam.
E a outra metade do coração aquele, que sábado ficou famoso lá no BananaCraft (obrigada, Dani!)? Ganhou outra personagem e a mesma frase para presentear a sobrinha. Para uma alminha-gêmea da minha, pude soltar o freio, abrir as janelas da imaginação, e aí as borboletas e abelhinha voaram em bando para alimentarem-se das ideias da menina-flor.
Colhi zínia rosada e lavandas bem cheirosas e amarrei no presente embalado. Acho que a menina-flor aprovou, parece que até a ouvi batendo palminhas lá dentro. E a menina aniversariante, essa fez o mesmo, mas com seus olhos, em piscadinhas de tanta luz!
E enquanto alinhavo o post, a voz que acorda a memória da sabedoria repassada começa a me assoprar fragmentos de uma das mais belas orações, reconhecida assim pela semente mais funda da minha alma. Vou atrás dela e reencontro um tesouro em forma de livro. Uma pausa para mergulhar na força de um jardim. O pequeno livro, O jardineiro que tinha fé, da minha valiosa mestra Clarissa Pínkola Estés, na íntegra você encontra aqui. A oração divido com vocês: Se não puder se recusar a cair,
recuse-se a ficar no chão.
Se não puder se recusar a ficar no chão,
eleve o coração aos céus e,
como um mendigo faminto,
peça que o encham,
e ele será cheio.
Podem empurrá-lo para baixo.
Podem impedi-lo de se levantar.
Mas ninguém pode impedi-lo de elevar seu coração
aos céus — só você.
É no meio da aflição que tantas coisas ficam claras.
Quem diz que nada de bom resultou disso
ainda não está escutando.

(A florzinha singela nascida do considerado inço, numa frestinha de nada de terra na minha escada, é a oração viva, e a ela dou vivas!)
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
Gratas surpresas!
Surpresa!! A corte é formada por três! majestades, que esperaram sua progenitora tombar, depois de meses firme e bela, para assumir o canteiro. Tão lindo quanto as flores, o recado das bromélias, da infinitude da vida, é de uma esperança que fala mais a meu coração que muitas filosofias e religiões.O carteiro, que sorri com certa familiaridade pelas visitas frequentes, chega com o embrulho e já quero adivinhar quem de longe quis fazer um agrado. Não identifico o remetente e ansiosa abro o pacote. Surpresa!! O livro tão amado e cuidado, presente para o filho ainda criança, que há bem mais de uma década criou asas, volta às minhas mãos como mágica! Quase não acredito, abraço e cheiro para matar a saudade, e vasculho pistas para encontrar o autor de tamanha façanha. Nada! Recorro ao Google, digito o endereço do remetente e caio numa livraria-sebo (Só podia, as edições estão esgotadas há anos! - falo sozinha). Desisto dos meios virtuais para matar a charada e resolvo curtir a alegria. Folheando bem devagarinho, vou reencontrando os velhos conhecidos como acontece com bons amigos: como se estivéssemos juntos ainda ontem. Aí paro na frente desta criaturinha...
... e faz-se a luz! Ora, quem poderia ler meus desejos com tanta clareza e decidir satisfazê-los senão uma gnoma? A comadre, é claro! A generosa amiga da vida toda, dinda com D bem grande do filho que a chama de dinda Baixinha (como prova da sua descendência do povo pequeno), só ela esqueceria, ou deixaria propositalmente de assinar o feito, entusiasmadíssima, projetando minha felicidade.
Só elas, as miúdas elementais da Terra, para me lembrarem com tanta propriedade da grandeza do feminino. Sim, queridas, celebrar é preciso, se enfeitar também, viver em harmonia, mais ainda.
Por telefone

A secretária liga e anuncia que o médico quer trocar umas palavrinhas. Ouço-as, enternecida. Enquanto ele agradece com seu jeito manso a mandala, presentinho de Natal por sua generosidade e competência em momento de grande angústia no ano passado, lembro de nossos capítulos ao longo de 30 anos, com um intervalo de 10, um hiato que também passou pela "mágica" de desaparecer assim que nos reencontramos. Lembro também da sua agenda superlotada, fato que não o impede de reservar uns minutinhos para a gentileza de um telefonema que é um afago pra mim. Quando nos despedimos, tenho uma certeza fortalecida: aqueles que nos inspiram pelas veias da beleza são presentes inestimáveis. Feliz escolha fiz quando o elegi como o profissional que traria meu filho à luz. Ser recebido para a vida por um ser humano desse quilate é um privilégio, também reconhecido por aquele bebê que hoje, homem feito, inunda os olhos ao saber que a primeira pessoa que o recepcionou ainda lembra daquela noite com detalhes... Não é mesmo de emocionar e de se espelhar?
Por comentário
O PAP que mostra a técnica da pintura de mandalas em vidro (clique aqui para ver) é um dos mais acessados no Amém. Sempre fico alegrinha quando penso que alguns desses interessados podem ter sido mordidos pelo bichinho mandaleiro e estarem curtindo trabalhar com as bolachonas de vidro. Ontem, a alegriazinha se transformou em alegriazona. Vejam por quê:
Marcela disse...
Olá! adorei sua explicação! Estarei fazendo estas mandalas com meus pacientes da saúde mental! Eles vão se apaixonar!
Quis agradecer, mas não encontrei nenhum caminho para chegar direto à Marcela. Faço-o aqui, na esperança de que ela volte a dar uma espiadinha neste espaço que ganhou ainda mais valor por suas palavras tão promissoras. Saber que as sementinhas daqui germinam aí é fermento para a dedicação e o cuidado que os leitores merecem, um incentivo a buscar com esmero a linha que nos aproxima em boas intenções.
Por tão belas, significativas e gratas surpresas, sou imensamente grata aos seus protagonistas e à Luz que nos sintoniza. Amém!
sábado, 13 de novembro de 2010
Um Bom Tricô
"Se você pode fazer tricô, tricotar em ponto meia e seguir instruções, então pode fazer qualquer coisa." (Linda Johnson)
Por uma daquelas sincronicidades que movimentam a vida reunindo dois momentos como fios que tecem um sentido meio mágico, o tricô voltou a dar o ar de sua graça depois de muito tempo dormindo entre as minhas vontades. Na última semana, as agulhas funcionaram para dar forma a um Chiquinho, nome genérico dado pelo filho e afilhado quando crianças a seus bonecos de tricô que os acompanharam pela infância como fieis escudeiros das noites e parceiros até das viagens. Dessa vez, o presente é para um menino Bento. Dias antes, a retomada do antigo vício dos invernos se anunciava no título de um livro entre centenas em uma daquelas superpromoções da Submarino. Para aproveitar o frete grátis que me traria o tão sonhado Dona Benta (também em super oferta, conquista que conto nos próximos posts), pus o Um Bom Tricô no carrinho, pagando muito pouco (10,00, hoje 15,00) para apostar na história de 4 mulheres que a sintética resenha apresenta. E em terna harmonia, em uma tarde de primavera ainda fresquinha, voltei a tricotar e, nos intervalos, comecei a ler o livro. Logo estava duplamente rendida: pela curtição de manejar as agulhas e ver o trabalho crescer, e pelo roteiro levinho, mas de muitos significados, de Debbie Macomber. Já nos primeiros capítulos chegaram lembranças de tantas mulheres e suas trajetórias, emoção traduzida pela designer Ann Norling, na abertura do cap. 9: "Somos todas unidas pelo tricô. Tricotar me mantém conectada a todas as mulheres que fizeram minha vida tão rica". Lembrei especialmente da minha inesquecível vó emprestada Tadadi, que fez do tricô seu altar, seu divã, produzindo com maestria roupinhas de bebê com uma delicadeza tão grande quanto sua alma.
Quer experimentar esse gostinho tão bom que um bom tricô pode dar à vida? Chiquinhos podem ser um bom começo. O projeto é muito simples e pode ser feito de vários tamanhos. Para este, trabalhei com 30 pontos de lã média, em ponto meia, trocando as cores em intervalos proporcionais para formar os sapatos, calça, blusa, rosto e gorro (clicando na foto pode-se ver o número de carreiras, só para ter uma ideia da altura de cada barra).
Para o gorro, trabalhe dois pontos juntos nas 3 últimas carreiras e arremate.
Costure.
Encha com plumante, amarre para formar a cabeça e costure no meio das pernas, deixando a emenda nas costas, e em cada lado do corpo para marcar os braços. Amarre também a parte dos sapatinhos.
Faça o cabelo com lã grossa bordando laçadas e borde olhos e boca com linha fina (veja detalhes na primeira foto). Incremente o visual do Chiquinho com suspensório, friso nos bolsos, cachecol, pompom no gorro, quem sabe botões, nome bordado na blusa, gravatinha... Vestido de vermelho, mais uma barba branquinha, pode-se até ter um Chiquinho Noel, hum? (rs)
Para aquelas que acham que não levam jeito com as agulhonas, um último recadinho do livro: "Dizem que as pessoas que não têm paciência para tricotar sao justamente aquelas que mais poderiam melhorar suas vidas se aprendessem!" (Saly Melville) (Tóin!...rs)
E a tarde ensolarada rendeu.
Amanhã, quero bis, mas também alguma pausinha para ir um pouco adiante das 100 páginas percorridas do Um Bom Tricô. Com um cenário desses, com canto de passarinho, dança de borboletas, cheiro de grama cortada, uma caixa lotada de tintas, um estoque de vidros e um livro que me chama, não preciso de muito mais para ser feliz (graças a Deus). sábado, 17 de julho de 2010
Hibernando com os lobos
A volta ao lar: O retorno ao próprio Self
Existe o tempo dos homens e o tempo selvagem. Quando eu era criança nas florestas do norte, antes de aprender as quatro estações do ano, eu imaginava que havia dezenas de estações: o tempo das tempestades noturnas, o tempo de relâmpagos silenciosos no horizonte, o tempo de fogueiras nos bosques, o tempo de sangue na neve; o tempo das árvores de gelo, o das árvores encurvadas, o das árvores chorando, o das árvores cintilantes, o das árvores empanadas, o das árvores ondulando apenas as folhas mais altas e o das árvores deixando cair seus frutos. Eu adorava as estações da neve de diamantes, da neve fumegante, da neve que chia e até mesmo da neve suja e da neve endurecida, pois estas últimas indicavam que estava chegando o tempo dos botões em flor no rio.
Essas estações eram como visitantes sagrados e importantes, e cada uma mandava seus arautos: cones de pinheiros abertos, cones fechados, cheiro de folhas apodrecendo, cheiro da chuva que vem, cabelos quebradiços, cabelos escorridos, cabelos volumosos, portas frouxas, portas justas, portas que não fecham de jeito nenhum, vidraças cobertas de fios de neve, vidraças cobertas de pétalas úmidas, cobertas de pólen amarelo, salpicadas de resina. E a nossa própria pele também tem seus ciclos: ressecada, suarenta, empoeirada, queimada de sol, macia.
(galho seco do pinheiro aqui de casa, excelente para começar o fogo do fogão a lenha, clicado pelo filho)
A psique e a alma das mulheres também têm seus próprios ciclos e estações de atividade e de solidão, de correr e de ficar, de se envolver e de se manter distante, de procura e de descanso, de criar e de incubar, de participar do mundo e de voltar ao canto da alma. Enquanto somos crianças e meninas, a natureza instintiva percebe todas essas fases e ciclos. Ela paira bem perto de nós, e nós estamos conscientes e ativas em períodos diversos, segundo a nossa decisão. As crianças são a natureza selvagem e, sem que recebam ordens para isso, elas se preparam para a chegada dessas estações, saudando-as, vivendo com elas e guardando desses tempos recuerdos, lembranças: a folha cor-de-carmim dentro do dicionário; as penas de pássaros; as bolas de neve no congelador; aquela vagem, varinha, osso ou pedra especial; a concha diferente; a fita do enterro do passarinho; um diário de perfumes da época; o coração tranquilo; o sangue que se excita; e todas as imagens nas suas mentes. 
(pedrinhas recolhidas em momentos bons por aí, reenergizadas ao Sol, para voltarem ao meu altar)
Houve um tempo em que vivíamos em harmonia com esses ciclos e estações ano após ano, e eles viviam em nós. Eles nos acalmavam, faziam com que dançássemos, nos sacudiam, nos tranqüilizavam, faziam com que aprendêssemos instintivamente. Eles faziam parte da pele da nossa alma — um pelo que envolve a nós e ao mundo natural e selvagem — pelo menos até o momento em que nos diziam que na verdade havia apenas quatro estações no ano, e que as próprias mulheres tinham apenas três estações — a infância, a idade adulta e a velhice. E supostamente isso era tudo. No entanto, não podemos nos permitir perambular como sonâmbulas envoltas por essa invenção frágil e desatenta, pois ela faz com que as mulheres se desviem dos seus ciclos naturais e profundos e, portanto, sofram de aridez, exaustão e nostalgia. É muito melhor que voltemos aos nossos próprios ciclos exclusivos e profundos, a todos eles, a qualquer um deles, ciclos importantes da mulher de volta ao lar, ao lar selvagem, ao lar da alma. (Clarissa Pinkola Estés)
(crochetando a almofada plagiada da casa da amiga Laély, seguindo os passos das lobas e "voltando pra casa")
quarta-feira, 14 de julho de 2010
Com a bíblia debaixo do braço
(relicário montado com Santa Teresinha e pequenos elementos, presentes de amigos)A pequena biblioteca da casa é vitrine dessa "salada" mística-religiosa. Os ingredientes passam pelo budismo, pelo tarô, pela astrologia, pelo taoísmo, pela cabala, pelo hinduísmo, até pelo ateísmo (para temperar os sentidos e ampliar a visão), por aspectos do paganismo, os que se vinculam à natureza e aos elementais, e pela psicologia, como caminho experimentado como paciente e comprovado como potente ferramenta para abrir frentes internas e nos aproximar, também, de Deus.
(bandeiras de oração, budistas, da loja Mãos do Mundo, em Canela, RS) Entre os livros, um deles conquistou minha alma de maneira tão arrebatadora, que ganhou o título de bíblia. Faz por merecer o status. Por quase 20 anos vai e volta da estante ao criado-mudo, aceita ser relido da forma mais anárquica possível (às vezes um parágrafo de uma página, outro de 10 folhas adiante), responde perguntas que ainda nem formulei, pergunta o que ainda não sei responder, mas antes de tudo me acolhe, dá colo, ilumina onde há sombras, me acorda e dá corda ao que pede para florescer...
Quero então compartilhar um pouquinho do Mulheres que Correm com os Lobos, da psicóloga junguiana e contadora de histórias Clarissa Pínkola Estés, com vocês. Às que não conhecem o livro, aviso que não é leitura que agrada a todas, ou não em qualquer estação da vida, como acontece com frequência com diferentes títulos. A tal hora certa funciona mesmo nessas afinidades e distanciamentos com temas, autores, não é mesmo? Às que já foram apresentadas a ele, aprovando ou desaprovando, um convite para que nos acompanhem nessa "trilha de lobas" que quero estender em alguns capítulos do AMÉM, pinçando trechos que acredito farão bem a todas nós (e aos "lobos" também). Começamos assim:
(...) Quando as mulheres reafirmam seu relacionamento com a natureza selvagem, elas recebem o dom de dispor de uma observadora interna permanente, uma sábia, uma visionária, um oráculo, uma inspiradora, uma intuitiva, uma criadora, uma inventora e uma ouvinte que guia, sugere e estimula uma vida vibrante nos mundos interior e exterior. Quando as mulheres estão com a Mulher Selvagem, a realidade desse relacionamento transparece nelas. Não importa o que aconteça, essa instrutora, mãe e mentora selvagem dá sustentação às suas vidas interior e exterior.Portanto, o termo selvagem neste contexto não é usado em seu atual sentido pejorativo de algo fora de controle, mas em seu sentido original, de viver uma vida natural, uma vida em que a criatura tenha uma integridade inata e limites saudáveis. Essas palavras, mulher e selvagem, fazem com que as mulheres se lembrem de quem são e do que representam. Elas criam uma imagem para descrever a força que sustenta todas as fêmeas. Elas encarnam uma força sem a qual as mulheres não podem viver. (...)
A compreensão dessa natureza da Mulher Selvagem não é uma religião, mas uma prática. Trata-se de uma psicologia em seu sentido mais verdadeiro: psukhe/psych, alma; ology ou logos, um conhecimento da alma. Sem ela, as mulheres não têm ouvidos para ouvir o discurso da sua alma ou pra registrar a melodia dos seus próprios ritmos interiores. Sem ela, a visão íntima das mulheres é impedida pela sombra de uma mão, e grande parte dos seus dias é passada num tédio paralisante ou então em pensamentos ilusórios. Sem ela, as mulheres perdem a segurança do apoio da sua alma. Sem ela, elas se esquecem do motivo pelo qual estão aqui; agarram-se às coisas quando seria melhor afastarem-se delas. Sem ela, elas exigem demais, de menos ou nada. Sem ela, elas se calam quando de fato estão ardendo. A Mulher Selvagem é seu instrumento regulador, seu coração, da mesma forma que o coração humano regula o corpo físico.
A jornada com Clarissa segue no próximo post, de mãos dadas, espero, com as lobas que circulam por aqui. Amém!
sábado, 10 de julho de 2010
O que as princesas comem?

porque nos palácios há sempre brigas, e as disputas entre princesas se resolvem na base do veneno. Por isso elas muitas vezes comem comida fria.
Com a devida permissão de quem entende do assunto, como os autores do livro que vem guiando os posts sobre o episódio palaciano no Restaurante Bouquet Garni, em Gramado, na visita da amiga Laély ao RS, nos entregamos às luxúrias da mesa, nem um pouco comedidas. Se princesas comem de tudo, e nem sempre o menu é leve, na nossa noite de conto de fadas não precisamos nem nos deter muito ao cardápio. A escolha estava predefinida por indicação do filho, chef que fez a função do degustador e garantiu que não corríamos riscos, nem de alguma decepção, se a pedida fosse uma pierrade (variação do fondue, com bifinhos de filé grelhados na pedra aquecida por rechaud pelos próprios comensais).
Princesas são curiosas, principalmente quando se trata de desvendar alquimias gastronômicas. Conclusão para justificar nossa entrega quase de olhos fechados à experiência de provar cada um dos molhos, salgados, picantes, agridoces, doces, sem nenhum receio de nos envenenarmos pela mistura dos tantos sabores, marcantes. Impossível não querer eleger o melhor e deflagrar o conflito: como escolher só um, ou só dois, ou só três? Resta um consenso: são todos com muita personalidade, confirmando que também na cozinha, como em outros universos, cada ingrediente tem seu valor. Alguns se casam com harmonia, outros brilham solitários, e saber combiná-los não é só questão de técnica, mas de ousadia, bom senso e sensibilidade de quem prepara e de quem degusta.
As companheiras ponderaram duas vezes e se renderam: vamos aos prazeres da sobremesa!
Pensaram mais algumas vezes com o delicado cardápio (que reproduz em aquarela a fachada do restaurante à beira do Lago Joaquina Bier) em mãos para decidirem compartilhar o sorvete de uma noite.
Enquanto elas atacavam, eu julgava que passar pela tentação doce era coisa de princesa vacinada, por momentos, do pecado da gula, mas mal sabia o que o pedido de um simples cafezinho iria me apresentar.
Um luxo para arregalar os olhos de qualquer princesa, e de súditos também! Para acompanhar o café, tuile, lembrando uma luminária, chocolatinho com a logotipia do Bouquet Garni e... pétalas de rosas caramelizadas. Sim, uma receita digna de constar em qualquer livro que se proponha a desvendar os mistérios "princesísticos", mas que pensando melhor talvez precise mesmo ser resguardada a sete chaves para não roubar-lhe o encanto. Dividimos irmamente a iguaria e saboreamos como um ritual sagrado, igual à criança pequena que se delicia com as novidades do mundo e assim vai (des)cobrindo os sentidos. Sentidos acordados pela beleza de tantos detalhes, do primeiro ao último movimento do serviço...
com seu teto de vidro exibindo a araucária iluminada ...
A noite memorável se encaminhava às 24 badaladas quando as três princesas, alimentadas de muito do que faz a alma brilhar, se despediram do capítulo que por anos recorreremos para reavivar a convicção de que a vida reserva lindas surpresas, mais prováveis quando damos uma "mãozinha" ao destino e um "pezinho" uns aos outros para alcançar estados de graça.
E em estado de graça, a tempo da carruagem não virar abóbora e congelarmos na volta a Canela, o registro para o post e a posteridade do nosso jantar estrelado, lembrando a todas as "meninas" a sentença da Princesa Efêmera da China:
Uma vez princesa, sempre princesa!
(Ainda que em certos dias as bruxas nos cerquem para nos convencer de que somos da sua turma, e façam mil convites venenosos para trocarmos o palácio iluminado pelo porão sombrio, nós temos a força da beleza vivida, antídoto para a amargura, elixir para recuperar tempos perdidos e sonhos adormecidos. Amém!)









