quarta-feira, 14 de julho de 2010

Com a bíblia debaixo do braço

(exercício de desapego, a velinha de tantos Natais acendeu a chaminé para ajudar a aquecer a casa gelada ontem à noite)
Não tenho religião formalizada, nem formatada. Católica de um berço pouco praticante, mas movido a "fé na vida, fé no homem, fé no que virá", um triângulo de força que nomeio de Criador, encontro-O em diversas crenças, filosofias, correntes religiosas e assim, num caleidoscópio ecumênico, procuro sustentar o vínculo com o sagrado, com o divino, com a espiritualidade.

(relicário montado com Santa Teresinha e pequenos elementos, presentes de amigos)

A pequena biblioteca da casa é vitrine dessa "salada" mística-religiosa. Os ingredientes passam pelo budismo, pelo tarô, pela astrologia, pelo taoísmo, pela cabala, pelo hinduísmo, até pelo ateísmo (para temperar os sentidos e ampliar a visão), por aspectos do paganismo, os que se vinculam à natureza e aos elementais, e pela psicologia, como caminho experimentado como paciente e comprovado como potente ferramenta para abrir frentes internas e nos aproximar, também, de Deus.

(bandeiras de oração, budistas, da loja Mãos do Mundo, em Canela, RS)

Entre os livros, um deles conquistou minha alma de maneira tão arrebatadora, que ganhou o título de bíblia. Faz por merecer o status. Por quase 20 anos vai e volta da estante ao criado-mudo, aceita ser relido da forma mais anárquica possível (às vezes um parágrafo de uma página, outro de 10 folhas adiante), responde perguntas que ainda nem formulei, pergunta o que ainda não sei responder, mas antes de tudo me acolhe, dá colo, ilumina onde há sombras, me acorda e dá corda ao que pede para florescer...

Quero então compartilhar um pouquinho do Mulheres que Correm com os Lobos, da psicóloga junguiana e contadora de histórias Clarissa Pínkola Estés, com vocês. Às que não conhecem o livro, aviso que não é leitura que agrada a todas, ou não em qualquer estação da vida, como acontece com frequência com diferentes títulos. A tal hora certa funciona mesmo nessas afinidades e distanciamentos com temas, autores, não é mesmo? Às que já foram apresentadas a ele, aprovando ou desaprovando, um convite para que nos acompanhem nessa "trilha de lobas" que quero estender em alguns capítulos do AMÉM, pinçando trechos que acredito farão bem a todas nós (e aos "lobos" também). Começamos assim:
(...) Quando as mulheres reafirmam seu relacionamento com a natureza selvagem, elas recebem o dom de dispor de uma observadora interna permanente, uma sábia, uma visionária, um oráculo, uma inspiradora, uma intuitiva, uma criadora, uma inventora e uma ouvinte que guia, sugere e estimula uma vida vibrante nos mundos interior e exterior. Quando as mulheres estão com a Mulher Selvagem, a realidade desse relacionamento transparece nelas. Não importa o que aconteça, essa instrutora, mãe e mentora selvagem dá sustentação às suas vidas interior e exterior.

Portanto, o termo selvagem neste contexto não é usado em seu atual sentido pejorativo de algo fora de controle, mas em seu sentido original, de viver uma vida natural, uma vida em que a criatura tenha uma integridade inata e limites saudáveis. Essas palavras, mulher e selvagem, fazem com que as mulheres se lembrem de quem são e do que representam. Elas criam uma imagem para descrever a força que sustenta todas as fêmeas. Elas encarnam uma força sem a qual as mulheres não podem viver. (...)
A compreensão dessa natureza da Mulher Selvagem não é uma religião, mas uma prática. Trata-se de uma psicologia em seu sentido mais verdadeiro: psukhe/psych, alma; ology ou logos, um conhecimento da alma. Sem ela, as mulheres não têm ouvidos para ouvir o discurso da sua alma ou pra registrar a melodia dos seus próprios ritmos interiores. Sem ela, a visão íntima das mulheres é impedida pela sombra de uma mão, e grande parte dos seus dias é passada num tédio paralisante ou então em pensamentos ilusórios. Sem ela, as mulheres perdem a segurança do apoio da sua alma. Sem ela, elas se esquecem do motivo pelo qual estão aqui; agarram-se às coisas quando seria melhor afastarem-se delas. Sem ela, elas exigem demais, de menos ou nada. Sem ela, elas se calam quando de fato estão ardendo. A Mulher Selvagem é seu instrumento regulador, seu coração, da mesma forma que o coração humano regula o corpo físico.

A jornada com Clarissa segue no próximo post, de mãos dadas, espero, com as lobas que circulam por aqui. Amém!

7 comentários:

Alexandre Mauj Imamura Gonzalez disse...

Eu te entendo perfeitamente pq sou assim tb. A religião é a minha, não tenho vínculo com nenhuma em direto. Todas tem pontos positivos, trazem boas mensagens... e faço eu minha salada ecumênica.

Esse livro parece ser mto bom. Vou procurar para ler.

Estudei psicologia e gosto de Jung.
vou ler o livro. Boa dica
bjs

Cacau Gonçalves disse...

Então, irmãzinha

Mais coisas em comum, né? :-)
Minha casa é repleta de "altares" que conseguem misturar bruxas com nossas-senhoras, ciganas com Ganesha, e por aí vai...rs

A minha história do Mulheres que correm com os lobos sempre foi Pele de Foca. Essa coisa de estar em um mundo ao qual não pertenço e, durante o primeiro casamento, a associação foi perfeita, principalmente pelo amor ao filho e tudo mais... Agora, o filho já está crescido e morando com o pai e eu acho que eu encontrei um "foca-macho" pra compartilhar meu mundinho doido ;-)

beijão

Fala Mãe! disse...

Sou como vc, católica pouco praticante, mas com fé na vida, no homem, e no que virá. Adorei o relicário, e o livro me despertou interesse, vou procurar. Qdo pequena eu lia os livros de Jung no consultário do meu pai, adorava (doidinha rs...)beijo rosana

analu disse...

rosana! Eu também sou um pouco parecida contigo, tenho olhos abertos para tudo, e todas formas que nos façam nos conhecer mais e acrescentar mais nesta nossa caminhada. Adorei o relicario, eu também tenho vários. Vim te agradecer pelo carinho por mais um ano de vida,mmmuito obrigada. Beijocas analú

Rosana Sperotto disse...

Alexandre, apesar de leiga, tenho muita afinidade com o legado de Jung. Acho que vais gostar de "correr junto com as lobas" (rs). Abraço grande

Cacau, minha querida, que saudade!!! Andaste "voando as tranças de foca com seu foca-macho" por aí, né? Lembrei logo de ti enquanto preparava o post. Beijos, irmã!

Ai, Cynthia, tu me fazes rir... Imaginei a cena de menininha devorando Jung e a cena é hilária. É isso aí, minha querida, "fé na vida, no homem, no que virá"... Beijinhos pra todos aí!

Oi, Analu, essas afinidades que nos agrupam também pela virtualidade me entusiasmam, ajudam a fortalecer a fé. Obrigada pela visita. Mais um abraço de aniversário!

Lu Pietra disse...

Oi. Ro...amei o post..chegou na hora certa aqui...estou buscando ..o livro ..pedi pra maridão ver se enconta la por SPaulo...fiquei muito curiosa para ler...mais uma vez....nos parecemos...em nossas crenças...depois falamos mais sobre isso...amei as bandeirinhas...ah...vou precisar de ajuda si8m pra fazer a mandala...vai ser muitobom dividir isso com voce...beijos e bom fim de semana...
NAMASTE.

Rosana Sperotto disse...

Oi, Lu, se queres arriscar (rs), o livro consegues pela Submarino, com entrega na porta e preço justo. Sou entusiasta da venda pela internet. Para que não pode bater perna por aí, é uma solução "caída do céu". Só tenho que segurar os "cliques" para não estourar o cartão (rs). Vams nos falando sobre a mandala, tá? Um ótimo fim de semana de inverno! Beijos da beira do fogão à lenha