Meu fevereiro ganhou uma companhia muito especial: Frida Kahlo, que divide comigo um pedaço relevante da sua e da minha história. Nós duas contraímos poliomielite na infância. É interessante como o sofrimento "compartilhado" cria uma cumplicidade estranha. Saber que vivemos situações semelhantes, por si só, gera tamanha proximidade, que basta ver sua imagem para perceber uma compreensão profunda no seu olhar. Sei que ela conhece a zona de desconforto que os diferentes experimentam com os dois pés conforme precisam caminhar pela vida, muito mais nos primeiros passos. Sei também que sublimamos muito da nossa limitação nos fixando nas borboletas. Se ela estampou uma revoada delas no gesso que cobriu seu corpo depois que o destino dobrou sua dor (o terrível acidente que a sequelou para sempre), na falta do brilhantismo do seu talento, também eu sigo perseguindo as criaturinhas aladas fotografando-as, observando-as nos detalhes, explorando-as ao máximo nas manualidades, muito antes de invadirem a moda e o gosto popular. Sim, Frida, "para que preciso de pés, se tenho asas para voar..." Esse é o mantra que salva da amargura. Nem sempre na ponta da língua, mas sempre à disposição num cantinho da alma quando o "bicho pega".
O belíssimo calendário é presente de outra mulher forte, sensível e sábia, também dona de um território de arte fértil. E porque os afins acabam por se encontrar, assim que organizei as fotos, me encantei em ver a linha das afinidades registrada no concreto.
Anelise também ama as borboletas.
Talvez também encontre nelas a porta de saída para essa realidade paralela que nos ampara para viver com mais atenção. Como disse tão bem a Jô, do Arte Amiga, "a gente precisa sair do automático para aproveitar nossos dias". A arte é aliada fiel nessa empreitada, não tenho dúvidas. E também para nos conectar com a espiritualidade genuína, independente das crenças ou religiões.






