Em Ivoti (RS), Cidade das Flores, uma antiga e bela tradição vem sendo resgatada pelo projeto Tecendo Memórias. Pude conferir de perto os wandschoner no fim de semana, quando a cidade recebeu visitantes para a Feira das Flores, junto ao núcleo de casas enxaimel. Foram três dias de um colorido intenso ressaltado pelo Sol forte do verão antecipado. Flores, arbustos, temperos, em abundância pelos canteiros dos diferentes jardins, paisagismo caprichado, propostas inovadoras despertaram nas visitas uma vontade urgente de botar a mão na terra, semear, cuidar, florir quintais, recantos, cantinhos...
Além de toda essa beleza proporcionada pelo trabalho dos floristas e paisagistas, a mostra de artesanato também encantou o público. A mim, especialmente o trabalho das bordadeiras, senhoras do Grupo de Terceira Idade Amizade que estão há anos se dedicando a recuperar o espaço nobre dos panos protetores de paredes, num processo de resgate das memórias histórico-afetivas da comunidade teuto-brasileira. Os wandschoner, do dialeto Hunsrück, é um artesanato típico da Alemanha que foi trazido para o Brasil pelas famílias imigrantes alemãs. Confeccionados em tecido de algodão, têm no centro uma mensagem bordada (provérbio popular, citação bíblica...), escrita em língua alemã. Em torno da mensagem geralmente são bordados ramos de flores. Nas paredes, refletem e transmitem valores e normas das famílias. Durante a Segunda Guerra Mundial, a língua alemã foi proibida no nosso país, e assim a arte de bordar wandschoner acabou abandonada pelas mulheres.
Graças ao empenho do Projeto, coordenado pelo Instituto Superior de Educação Ivoti, desde 2004 a atividade foi retomada. As bordadeiras experientes encarregam-se de passar adiante a técnica e a alma dos panos. Em oficinas, já capacitaram mais de 3o mulheres a dar continuidade à arte delicada das imagens e palavras coloridas de história. E dessa forma, além de contribuírem para renascimento de uma tradição singela e carregada de significados, também semeiam uma nova alternativa econômica para essas novas artesãs, de diferentes idades, e para o município. Uma iniciativa movida a entusiasmo que se reflete no primeiro momento de conversa com as omas. Com a maior paciência, leram e traduziram várias frases dos panos expostos, enquanto minha vontade crescia de sentar na roda para ensaiar uns pontinhos nessa história tão bem bordada.

