Minhas mãos continuam as mesmas, quase sempre dispostas a encarar projetinhos artesanais, já as palavras, às vezes parece que o gato (Bibi?) roubou. Daí, a melhor carta na manga é chamar os poetas, entregar-lhes a missão de dar significado ao que nasce meio no escuro aqui.Fala, então, meu querido Rubem Alves, e diz que fascínio é esse que me toma juntando mandalas de crochê:
"Gosto de armar quebra-cabeças. Nome errado. Eles não quebram a minha cabeça. Ao contrário, põem a minha cabeça no lugar. Nome mais apropriado deveria ser “junta-cabeças”. Todas as atividades que implicam arrumar, armar, juntar, montar, tecer têm uma função terapêutica. Elas ativam processos organizatórios das emoções e das idéias. Juntando as peças do meu junta-cabeças sobre a mesa vou juntando as peças do meu junta-cabeças interno."
E sobre o xale tricotado, o que tens a lembrar?"Dizem alguns, entre eles Jung, se não me engano, que “coincidências” não existem. Coincidências, eles dizem, só são coincidências quando vistas na face direita do tapete.
Mas, se pudéssemos olhar o avesso, encontraríamos os fios do destino que fizeram aquele encontro inevitável. Os homens veem o direito; os deuses tecem o avesso."
Mas, se pudéssemos olhar o avesso, encontraríamos os fios do destino que fizeram aquele encontro inevitável. Os homens veem o direito; os deuses tecem o avesso." Vê só, Rubem, experimentei um recadinho dos deuses há pouco, aqui, ó: combin(ação).

E pra fechar com palavras de ouro, uma grande poeta de alma encantadoramente crafter, Marina Colasanti, que me fez buscar a imagem de um pedacinho do meu reino das coisas miúdas:
"As coisas que quase ninguém vê e as coisas pequenas me seduzem muito. Gosto de costurar, gosto de fazer tricô, gosto de bordar. E tenho muita paciência. Posso desmanchar uma saia inteira, se ela não ficar do jeito que eu queria. Eu estou sempre interessada no detalhe, nas coisas pequenas, nas belezas encobertas. Tenho a sensação de que, quando estou entretida no pequeno, me aproximo mais de mim. O pequeno é uma roupa de escafandrista, uma roupa de mergulhar... "
Obrigada, donos de tanta inspiração, por puxarem a ponta do novelo com tamanha delicadeza e desenrolarem o que tantas vezes se embola em nós dentro de nós, tecendo pontos de luz para nos acordar. Que a poesia nos salve sempre. Amém!
Obrigada, donos de tanta inspiração, por puxarem a ponta do novelo com tamanha delicadeza e desenrolarem o que tantas vezes se embola em nós dentro de nós, tecendo pontos de luz para nos acordar. Que a poesia nos salve sempre. Amém!


















