Mostrando postagens com marcador tricô. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador tricô. Mostrar todas as postagens

domingo, 19 de junho de 2011

Agulhas & poesia

Minhas mãos continuam as mesmas, quase sempre dispostas a encarar projetinhos artesanais, já as palavras, às vezes parece que o gato (Bibi?) roubou. Daí, a melhor carta na manga é chamar os poetas, entregar-lhes a missão de dar significado ao que nasce meio no escuro aqui.

Fala, então, meu querido Rubem Alves, e diz que fascínio é esse que me toma juntando mandalas de crochê:

"Gosto de armar quebra-cabeças. Nome errado. Eles não quebram a minha cabeça. Ao contrário, põem a minha cabeça no lugar. Nome mais apropriado deveria ser “junta-cabeças”. Todas as atividades que implicam arrumar, armar, juntar, montar, tecer têm uma função terapêutica. Elas ativam processos organizatórios das emoções e das idéias. Juntando as peças do meu junta-cabeças sobre a mesa vou juntando as peças do meu junta-cabeças interno."
E sobre o xale tricotado, o que tens a lembrar?

"Dizem alguns, entre eles Jung, se não me engano, que “coincidências” não existem. Coincidências, eles dizem, só são coincidências quando vistas na face direita do tapete. Mas, se pudéssemos olhar o avesso, encontraríamos os fios do destino que fizeram aquele encontro inevitável. Os homens veem o direito; os deuses tecem o avesso."

Vê só, Rubem, experimentei um recadinho dos deuses há pouco, aqui, ó: combin(ação).

E pra fechar com palavras de ouro, uma grande poeta de alma encantadoramente crafter, Marina Colasanti, que me fez buscar a imagem de um pedacinho do meu reino das coisas miúdas:

"As coisas que quase ninguém vê e as coisas pequenas me seduzem muito. Gosto de costurar, gosto de fazer tricô, gosto de bordar. E tenho muita paciência. Posso desmanchar uma saia inteira, se ela não ficar do jeito que eu queria. Eu estou sempre interessada no detalhe, nas coisas pequenas, nas belezas encobertas. Tenho a sensação de que, quando estou entretida no pequeno, me aproximo mais de mim. O pequeno é uma roupa de escafandrista, uma roupa de mergulhar... " Obrigada, donos de tanta inspiração, por puxarem a ponta do novelo com tamanha delicadeza e desenrolarem o que tantas vezes se embola em nós dentro de nós, tecendo pontos de luz para nos acordar. Que a poesia nos salve sempre. Amém!

domingo, 6 de março de 2011

Saindo da casca

Pintinhos de pompom, macios, anunciam faceiros a contagem regressiva para a festa do renascimento, e para quem o Carnaval passa bem longe, a referênciados 40 dias que antecedem a Páscoa é o sentido maior do feriadão, ensolarado no Sul, para alegria dos foliões e viajantes. Mal sabem eles, os amarelinhos, a carona que pego nessa promessa, o quanto brincar de transformar fios de lã em criaturinhas fofas tem aliviado os dias aflitivos daqui. Além da ninhada, nascem também figuras crochetadas para montar o cenário onde vão morar.
Um arco-íris em forma de florzinhas, folhas, casca de ovo, arranjados em guirlandas cobertas de verde em tom que lembra relva, que lembra ilustração antiga de famílias de coelhos nos preparativos para a Páscoa.
Nessas cenas campestres, também não podia faltar o cesto recheado de ovos, escondido entre as gramíneas, e, vez que outra, cogumelos vermelhos, que aos meus olhos de criança ganhavam em beleza até dos chocolates. Considerei um pequeno milagre reproduzir essas lembranças tecendo pontinhos, laçadas, misturando fios, texturas...
Trocando a agulha de crochê pelas de tricô, o personagem principal da comemoração ganhou forma rapidinho. Segui os passos dos Chiquinhos (aqui) e o seu Coelho ganhou um jeito meio malandrinho. Prevenido para uma Páscoa tardia este ano, já em clima de outono.... ...enrolou-se num cachecol na cor da sua refeição preferida.
Enquanto bordo os votos em pequenos pontos, envergo arame e cubro-o com muitas e muitas voltas de lã, testo pétalas e invento miolos, a fantasia singela da Páscoa toma os pensamentos, multiplica ideias para outros projetinhos, traz para perto um certo encantamento das fábulas, dá um pezinho para alcançar um recreio da realidade. E se o que nasce das agulhas é puro faz-de-conta, não importa. Por momentos, vale tudo, e então fantasia-se o presente na tentativa de resgatar a sintonia com a beleza. E por pura graça, faz-se a mágica! Os olhos recuperados voltam a encontrar a grandeza da vida, num intervalinho de tempo, começando pelas minúsculas manifestações do sagrado no meu jardim.
"O tempo passa. O fôlego retorna. Parece milagre, mas as sementes de cura começam a florescer nos mesmos jardins onde parecia que nenhuma outra flor brotaria. A alma é sábia: enquanto achamos que só existe dor, ela trabalha, em silêncio, para tecer o momento novo. E ele chega." (Ana Jácomo)
Que a esperança seja nosso norte para chegarmos à Páscoa rendidos ao desejo de acordar o que precisa despertar em nós. Amém!
P.S. As guirlandas estão disponíveis para viajar para casas que curtem esperar pelo Coelho num astral de alegria bem colorida. Para falar com Dona Coelha (rs), entre em contato pelo e-mail: rosanasperotto@hotmail.com

sábado, 13 de novembro de 2010

Um Bom Tricô

"Se você pode fazer tricô, tricotar em ponto meia e seguir instruções, então pode fazer qualquer coisa." (Linda Johnson)
Por uma daquelas sincronicidades que movimentam a vida reunindo dois momentos como fios que tecem um sentido meio mágico, o tricô voltou a dar o ar de sua graça depois de muito tempo dormindo entre as minhas vontades. Na última semana, as agulhas funcionaram para dar forma a um Chiquinho, nome genérico dado pelo filho e afilhado quando crianças a seus bonecos de tricô que os acompanharam pela infância como fieis escudeiros das noites e parceiros até das viagens. Dessa vez, o presente é para um menino Bento. Dias antes, a retomada do antigo vício dos invernos se anunciava no título de um livro entre centenas em uma daquelas superpromoções da Submarino. Para aproveitar o frete grátis que me traria o tão sonhado Dona Benta (também em super oferta, conquista que conto nos próximos posts), pus o Um Bom Tricô no carrinho, pagando muito pouco (10,00, hoje 15,00) para apostar na história de 4 mulheres que a sintética resenha apresenta. E em terna harmonia, em uma tarde de primavera ainda fresquinha, voltei a tricotar e, nos intervalos, comecei a ler o livro. Logo estava duplamente rendida: pela curtição de manejar as agulhas e ver o trabalho crescer, e pelo roteiro levinho, mas de muitos significados, de Debbie Macomber. Já nos primeiros capítulos chegaram lembranças de tantas mulheres e suas trajetórias, emoção traduzida pela designer Ann Norling, na abertura do cap. 9: "Somos todas unidas pelo tricô. Tricotar me mantém conectada a todas as mulheres que fizeram minha vida tão rica". Lembrei especialmente da minha inesquecível vó emprestada Tadadi, que fez do tricô seu altar, seu divã, produzindo com maestria roupinhas de bebê com uma delicadeza tão grande quanto sua alma.Quer experimentar esse gostinho tão bom que um bom tricô pode dar à vida? Chiquinhos podem ser um bom começo. O projeto é muito simples e pode ser feito de vários tamanhos. Para este, trabalhei com 30 pontos de lã média, em ponto meia, trocando as cores em intervalos proporcionais para formar os sapatos, calça, blusa, rosto e gorro (clicando na foto pode-se ver o número de carreiras, só para ter uma ideia da altura de cada barra).
Para o gorro, trabalhe dois pontos juntos nas 3 últimas carreiras e arremate.
Costure.
Encha com plumante, amarre para formar a cabeça e costure no meio das pernas, deixando a emenda nas costas, e em cada lado do corpo para marcar os braços. Amarre também a parte dos sapatinhos.Faça o cabelo com lã grossa bordando laçadas e borde olhos e boca com linha fina (veja detalhes na primeira foto). Incremente o visual do Chiquinho com suspensório, friso nos bolsos, cachecol, pompom no gorro, quem sabe botões, nome bordado na blusa, gravatinha... Vestido de vermelho, mais uma barba branquinha, pode-se até ter um Chiquinho Noel, hum? (rs)
Para aquelas que acham que não levam jeito com as agulhonas, um último recadinho do livro: "Dizem que as pessoas que não têm paciência para tricotar sao justamente aquelas que mais poderiam melhorar suas vidas se aprendessem!" (Saly Melville) (Tóin!...rs)
Mas se o recreio à base de tricô fez bem, o feriadão reserva outra ocupação para as mãos, sem muitos intervalos. Mandalar, mandalar, mandalar... Exposição à vista, vendas de Natal começando a aquecer. E para ganhar novo ânimo, hoje fui "trabalhar fora"...
E a tarde ensolarada rendeu. Amanhã, quero bis, mas também alguma pausinha para ir um pouco adiante das 100 páginas percorridas do Um Bom Tricô. Com um cenário desses, com canto de passarinho, dança de borboletas, cheiro de grama cortada, uma caixa lotada de tintas, um estoque de vidros e um livro que me chama, não preciso de muito mais para ser feliz (graças a Deus).
Um "bom" feriadão a todos! Amém.