quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Sinais de fumaça...

... das chaminés dos fogões e lareiras anunciam que a tão aguardada neve chegou ao Sul, ponto alto do inverno gaúcho, na congelante noite passada. Mais uma vez, o antigo desejo de ver o espetáculo fica dormindo na gaveta dos sonhos, porque se vivo num "eterno domingo" nessa nova rotina mansa, em volta, o "povo" de perto segue com suas agendas lotadas de um sem-fim de compromissos. Quem poderia se dar ao luxo de subir à serra em plena quarta-feira de trabalho?... Então, fico por aqui, feito ostra, plagiando a amiga Taia, rastreando as novidades climatológicas à distância...
enroupada como a chola no meu baú, faltando apenas o chapéu (que me lembrou dessa outra amiga aqui desfilando com um bem parecido)...
e com os pés sobre a bolsa de água quente para ressuscitarem do estado "picolé", vestidos das meias tricotadas há muitos invernos pela amiga Susi. Susi que veio da terra da neve intensa, do fondue, chocolate e canivetes famosos, que ama o verão tropical e garante que nevasca é muito linda como acontece no Rio Grande, por tempo curto, porque mais do que isso é ideia romanceada (será?) vendida nas telas, páginas, fotos... Seriam as violetas-dos-Alpes propaganda enganosa, Su? Viradas do avesso, essas meninas que já nascem "do contra" e logo mudam as regras do jogo, curvando-se e movimentando suas pétalas para o alto em pose de rainhas, enfrentam o frio sem perder a elegância, honrando suas raízes europeias, e me encantam.
Honrando pouco minha origem, "apanho" para fazer um fogo, mas "fumegar" é preciso, mesmo que a neve esteja a 100 km...
mais ainda quando o gás termina já quase madrugada, o botijão reserva está vazio e os pudins para a festa da sobrinha precisam cozinhar... Final feliz para a sobremesa que teve calma, passou a noite em banho-maria e terminou de assar no forno do fogão na manhã seguinte.
Sinais (evidentes) de fumaça, que não me incomodam nenhum pouco, estão por todos os cantos da casa, nas roupas e nas invenções dos últimos dias, como nas almofadas que aquecem a vontade de crochetar, costurar, pintar...
e lembram dos ciclos: a estrela de lã, tão convidativa a um abraço nesse invernão, e a fada de seda (nascida numa fase curta de entusiasmo pelo trabalho "trabalhoso" da pintura em seda e costurada nesta semana), tão suave e geladinha, à espera de um colo no verão. Entre elas, a menina feliz, incorporada de primavera. Todas, devidamente defumadas, incluindo-me (rs)...
e o Bibi, que mesmo com seu casaco de pele, busca refúgio nos lugares mais inusitados, de preferência as sacolas, paixão sua em todas as estações.
E sigo por aqui rezando a mesma reza de muitos gaúchos: Que não me falte lenha, nem teimosia para continuar amando o inverno. Amém! (Aguardo sinais de fumaça daí... rs)

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Mestre que é mestre...

... semeia em nossa vida bons ensinamentos, por teoria, conhecimento, mas sobretudo por belos exemplos. Assim é com a Nilda, minha mestra e madrinha no aprendizado de "mandalar". Privilégio dos grandes conviver e poder se inspirar pela sua arte e sua postura íntegra e sábia na lida com os caminhos da existência. Se hoje se apregoa a necessidade do desapego, para que se abra espaço ao novo, e acredito nessa lei de movimento ou estagnação, há semanas acompanho o desenrolar de uma decisão sua exemplar de doação. Com entusiasmo, aos poucos foi dando forma à Exposição de Desenhos - Retrospectiva, um acervo montado em mais de duas décadas, que inaugura na próxima quinta-feira, dia 5, às 18h30, na Villa D´Assisi (espaço que comentei aqui quando encontrei com a Cecília).
Os trabalhos, quase 30, de diferentes fases, técnicas e temáticas, estarão à venda a preços muito razoáveis para facilitar a aquisição e garantir que a renda recolhida seja satisfatória à causa que motivou a mobilização e despreendimento da artista: uma verba extra para a Associação Pandorga, aqui da cidade, que dá assistência a crianças e adolescentes deficientes, a maioria, autistas. Para conhecer a instituição, sem fins lucrativos e do maior gabarito no atendimento, clique aqui.
Confira o que reserva aos que visitarem a mostra pela sensibilidade de outra mestra, professora de Literatura lá dos tempos do ginásio, que faz a apresentação no convite num texto primoroso, confirmando que os "feras" se entendem:
(clique na imagem e transporte-se à alma de Nilda pelas palavras de Elvira Hoffmann)

Então, para quem é de perto, fica o convite para se juntar a nós na quinta-feira à tardinha, para curtir a beleza plástica, a beleza da iniciativa, a beleza também da música na apresentação do Quarteto do Museu, que deu corda à boa-vontade e engajou-se na causa. Quem sabe, a beleza também passe por encontros com quem passa por aqui e poderemos trocar abraços. Será uma alegria grande!
E para quem é de longe, que respingue por aí a energia gostosa dessa super(ação). Amém!

A exposição fica aberta à visitação até 5 de setembro, das 15 às 24h, na Villa D´Assisi, na Avenida João Correa, 896, esquina Rua Marquês do Herval, São Leopoldo, RS.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Jeitinhos

Tenho o nariz bem torcido ao jeitinho que nos rotula como um povo "esperto", sempre pronto a encontrar uma maneira de se dar bem, pouco importando o mal que possa respingar dessa malandragem. Em busca da imagem acima, acabei sabendo um pouco mais sobre a tal característica histórica e relaxei ao saber que, de acordo com o professor Lourenço Rega, autor do livro "Dando um Jeito no Jeitinho", ele também tem seu lado positivo reconhecido em três características: inventividade/criatividade, função solidária e o lado conciliador do jeitinho. Não fui atrás das duas últimas, já que a intenção é somente ilustrar o post sobre algumas alternativas encontradas dentro do quesito inventividade seguindo o mantra aquele de "fazer do limão uma limonada". Acredito que quem convive com algum tipo de restrição desenvolve essa capacidade naturalmente, talvez com mais facilidade. Fecha-se alguma porta e o ser humano se põe a recorrer à sua criatividade e descobrir soluções inimagináveis, muitas vezes. Se as limitações são físicas, como é comigo, os jeitinhos nascem dia a dia em estratégias rapidamente montadas. Falha uma, procura-se logo outra, e outra, até resolvermos o que "atravanca o caminho (eles passarão... eu passarinho, não é, Mario Quintana?)". Se o corpo fala, quem não pode contar com sua eficiência integral trata de falar com ele numa linguagem de conciliação. E só assim é possível tocar a vida, embora nem sempre o tom dessa parceria seja assim tão amistoso (rs). Mas a gente tenta, esperneia para manter "a mente quieta, a espinha ereta, o coração tranquilo", rebola para não entregar o jogo aos arqui-inimigos que rondam com carapuças de desânimo e auto-comiseração e também para aprender a jogar a toalha quando a escalada é demasiadamente pesada e nenhum jeitinho pode suavizá-la.
Então, treinada em "limonadas"...
O que era vidro e se quebrou ganhou um "curativo" de superbonder e renda e uma cara única para proteger os bolos na cozinha.
O que era pesada e muito linda caiu do galho intacta, acompanhada de outras duas, que deram dois suspiros e depois...
foram morar em outro arranjo, sob a benção da deusa sonhadora.
O que era uma calça jeans renasceu em forma de bolsa florida...
e como a costureira não é lá essas coisas, ela emprestou seu bolso prontinho...
que foi aplicado no tecido que sobrou dessa outra aqui...
E como a costureira não sabe colocar fecho, um botão resolve o fechamento...
e um crochezinho aumenta as tiras ...
E com jeitinho de menina-moça, em rosa-azul-verde, pronta para ser embalada para presente. Presente para minha mãe, menina vaidosa de 79 anos que apaga velinhas hoje, aquela que me ensinou a espremer o limão, com jeitinho, para não amargar (e a quem abraço de longe, porque 4 lances de escada nos separam, o elevador do seu prédio está em conserto e pra isso não tem jeitinho... Quem sabe uma mágica que me desse asas? ... rs).

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Abraçando Cecília forever

A filha Helena já tinha me dado a alegria do abraço real, depois de muitas trocas bloguísticas, e de dividir a mesa num jantarzinho inesquecível aqui em casa, junto com minha hóspede Laély, no início de junho. Ontem, no capítulo seguinte da nossa história recheada de sincronias, foi a vez de abraçar Cecília, a mãe. E a tarde emburrada e fria do Sul ganhou ares de festa que o coração reconhece quando não vê o tempo passar e o papo se desenrola macio como novelo de lã nas mãos das tricoteiras. Tal mãe, tal filha, as duas são mestras em quiltar tecidos, linguística e também assuntos para uma conversa colorida e harmoniosa, e assim foi nosso café na Villa D´Assisi, espaço bacana em São Leopoldo que reúne um combo de belas propostas: restaurante, livraria, escola de música, ambiente para exposições e shows de boa música, tudo isso ambientado numa casa de grande bom gosto.
Gosto bom experimentado pelas meninas nos doces e bebidas, como o "Brasileirinho", escolha certeira da carioca Cecília que não se intimidou com a baixa temperatura e optou por um café com sorvete. Não poderia me encolher, como gaúcha e entusiasta do inverno, e acompanhei o pedido da visita em outra versão: waffle quentinho com sorvete de creme
.

Mas antes disso, Edna, cunhada de Cecília, encarregou-se da trilha sonora do encontro no piano à disposição dos clientes. Despretensiosamente, nos presenteou com sua música e fez bonito.
Seguindo o tour pela Villa, na livraria mais uma sincronia aguardava Cecília bem à mão na estante que tem como atração os relógios mostrando as horas em diferentes partes do mundo: Tito Madi, citado por ela no post de chegada ao Rio Grande, que pode ser visto aqui.
Amizades que rapidamente criam intimidade é dádiva preciosa. Em pouco mais de uma hora estávamos tão à vontade que o papo passou também pelo banheiro, um show de estilo na Villa. Sabíamos que as meninas que nos acompanham também gostariam de conhecê-lo e, então, tratamos de clicar.
O amplo toalete da casa, que já foi moradia, manteve seu estilo anos 60 (ou seria 50?) e causa impacto. Um túnel do tempo com os azulejos contrastantes, almofadas, flores, bancada, todos na mesma paleta de cores (e seguindo o preto e rosa, a fotógrafa e sua bengala, com destaque para o colar com mandala: olha ele aí, Helena!), um ambiente totalmente "mulherzinha" que nos faz sentir divas em um camarim.
Menos diva, mas com um outro glamour embalando a aura, o das boas experiências vividas, começo mais um dia gelado com direito a auto-retrato, com a alma e o peito aquecidos pelos pontinhos da Cecília.
Abençoados são os pontos de luz que nos agrupam nesse surpreendente patchwork das vidas que se encontram, forever.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

O pequeno e o gigante

Quem será que se escondeu entre a bruma e os cogumelos no tronco que já apareceu aqui, em época de Natal, e hoje brinca de esconde-esconde em parceria com outro que resolveu entrar em ação?
Onde estará o gigante que acordou assoprando um bafo tão quente na rua que a umidade não poupou nem a lente da câmera, provocando mágicos efeitos, e faz a casa fria transpirar às bicas pelas paredes...
vidros... espelhos...
chão...
transformando a gatinha e as rosas perfumadas em peças de cristal?
Ah, seu malandrinho do jardim, será que também estás com a alma incomodada ou te deleitas vendo os cogumelos crescerem afoitos no seu dia ideal...
pensando talvez num banquete para logo mais à noite...
enquanto à humana aqui só resta encontrar tarefas bem comportadas, sentadas, já que o chão escorregadio é perigo grande e constante para a turma dos bengaleiros?
E como os vidros das mandalas também aderiram à transpiração, e assim sem condições de serem pintados, acendo o forno para matar dois coelhos: finalizo as "bolachonas coloridas" e o calorzinho ajuda a secar a cozinha, que mais parece pista de patinação.
Que venha o vento frio para por a correr esse ogro...
e nos salvar do mofo e do frio da alma desabrigada! Amém!

terça-feira, 20 de julho de 2010

Casa de amigo

(na casa da amiga Jane, as bonecas by Rosana, presentes para ela ao longo da nossa longa trajetória, testemunham a parceria e a cumplicidade)
Na casa do amigo
os móveis flutuam
a um palmo do chão.

O ar é mais leve:
em cada recanto
os pássaros tecem.


Na casa do amigo
todas as confidências
são permitidas.

Todas as palavras
são entendidas
tão facilmente,
que é como água
falando com água.

Na casa do amigo
o coração se alimenta.
(Roseana Murray)

(e nos papos emendados por horas a fio, a vida ganha capítulos iluminados tal e qual propaganda de margarina)

Aos amigos, irmãos que se escolhe, todos, os daqui e os daí, um abraço redondo de carinho e gratidão.

sábado, 17 de julho de 2010

Hibernando com os lobos

(uma folha marcando o tempo no belo registro do amigo Alan, em Gramado, RS)
Chove e o frio intenso continua no Sul. Tempo bom para curtir a toca. Recolhida, encolhida, sigo a caminhada com as "lobas", com o livro a tiracolo. Fica o convite para se aquecerem também com mais um capítulo.

A volta ao lar: O retorno ao próprio Self

Existe o tempo dos homens e o tempo selvagem. Quando eu era criança nas florestas do norte, antes de aprender as quatro estações do ano, eu imaginava que havia dezenas de estações: o tempo das tempestades noturnas, o tempo de relâmpagos silenciosos no horizonte, o tempo de fogueiras nos bosques, o tempo de sangue na neve; o tempo das árvores de gelo, o das árvores encurvadas, o das árvores chorando, o das árvores cintilantes, o das árvores empanadas, o das árvores ondulando apenas as folhas mais altas e o das árvores deixando cair seus frutos. Eu adorava as estações da neve de diamantes, da neve fumegante, da neve que chia e até mesmo da neve suja e da neve endurecida, pois estas últimas indicavam que estava chegando o tempo dos botões em flor no rio.

(uma árvore cintilando no inverno no Parque da Cascata do Caracol, em Canela, RS)

Essas estações eram como visitantes sagrados e importantes, e cada uma mandava seus arautos: cones de pinheiros abertos, cones fechados, cheiro de folhas apodrecendo, cheiro da chuva que vem, cabelos quebradiços, cabelos escorridos, cabelos volumosos, portas frouxas, portas justas, portas que não fecham de jeito nenhum, vidraças cobertas de fios de neve, vidraças cobertas de pétalas úmidas, cobertas de pólen amarelo, salpicadas de resina. E a nossa própria pele também tem seus ciclos: ressecada, suarenta, empoeirada, queimada de sol, macia.

(galho seco do pinheiro aqui de casa, excelente para começar o fogo do fogão a lenha, clicado pelo filho)

A psique e a alma das mulheres também têm seus próprios ciclos e estações de atividade e de solidão, de correr e de ficar, de se envolver e de se manter distante, de procura e de descanso, de criar e de incubar, de participar do mundo e de voltar ao canto da alma. Enquanto somos crianças e meninas, a natureza instintiva percebe todas essas fases e ciclos. Ela paira bem perto de nós, e nós estamos conscientes e ativas em períodos diversos, segundo a nossa decisão. As crianças são a natureza selvagem e, sem que recebam ordens para isso, elas se preparam para a chegada dessas estações, saudando-as, vivendo com elas e guardando desses tempos recuerdos, lembranças: a folha cor-de-carmim dentro do dicionário; as penas de pássaros; as bolas de neve no congelador; aquela vagem, varinha, osso ou pedra especial; a concha diferente; a fita do enterro do passarinho; um diário de perfumes da época; o coração tranquilo; o sangue que se excita; e todas as imagens nas suas mentes.

(pedrinhas recolhidas em momentos bons por aí, reenergizadas ao Sol, para voltarem ao meu altar)

Houve um tempo em que vivíamos em harmonia com esses ciclos e estações ano após ano, e eles viviam em nós. Eles nos acalmavam, faziam com que dançássemos, nos sacudiam, nos tranqüilizavam, faziam com que aprendêssemos instintivamente. Eles faziam parte da pele da nossa alma — um pelo que envolve a nós e ao mundo natural e selvagem — pelo menos até o momento em que nos diziam que na verdade havia apenas quatro estações no ano, e que as próprias mulheres tinham apenas três estações — a infância, a idade adulta e a velhice. E supostamente isso era tudo. No entanto, não podemos nos permitir perambular como sonâmbulas envoltas por essa invenção frágil e desatenta, pois ela faz com que as mulheres se desviem dos seus ciclos naturais e profundos e, portanto, sofram de aridez, exaustão e nostalgia. É muito melhor que voltemos aos nossos próprios ciclos exclusivos e profundos, a todos eles, a qualquer um deles, ciclos importantes da mulher de volta ao lar, ao lar selvagem, ao lar da alma. (Clarissa Pinkola Estés)

(crochetando a almofada plagiada da casa da amiga Laély, seguindo os passos das lobas e "voltando pra casa")