quinta-feira, 11 de março de 2010

O ponto alto da (a)ventura (capítulo final)

No destino mais aguardado da nossa viagem, Santa Teresa, na serra do Espírito Santo, a amiga Laély e seus "meninos" nos esperavam assim, com braços abertos. Com o coração acelerado pela expectativa...
pousar no ninho lá no alto da amiga foi um capítulo à parte, escrito e grifado pelos...gestos amáveis e cuidados especiais, em todos os momentos e por toda parte, como a moringa, os sabonetinhos, as lavandas do jardim e as flores miúdas perfumando o quarto do menino do meio emprestado às hóspedes com sua gentileza cativantee os quitutes de quem não pensa duas vezes para entrar na cozinha e faz um banquete para o almoço de recepção às gaúchas, com direito à mesa embaixo de árvore, flores, prece de boas-vindas... Disposição que segue no dia seguinte: acorda mais cedo para preparar pretzel (delicioso!) para o brunch de domingo, recheado de outros produtos caseiros, como os pães e o creme de açaí, hum... sabor do norte que conquistou o paladar das turistas do sul.
Como os trabalhadores do seu quintal, movidos a vento, nossa amiga se desdobra, movida a entusiasmo e generosidade, e multiplica o tempo dando conta de seu trabalho, da rotina da sua grande família e de paparicar as "meninas" sob seus cuidados.
No papel de guia, não mede quilômetros, e com as inseparáveis câmeras na bolsa, lá fomos nós conhecer outras belezas capixabas, agora serranas, com seus relevos e verdes parecendo patchwork do Criador, como o Vale do Caravaggio
e o Mosteiro Zen Morro da Vargem

que faz da Natureza o motivo maior da reverência e divide com os visitantes sua sagrada perfeição, simbolizada nesse arbusto exótico, que não poderia estar em outro lugar com sua surpreendente forma de mala (rosário budista).

Encantei-me com tamanha semelhança ...

e com a filosofia do lugar, como a Laély conta aqui.
Encantadas, pose para a foto, tentativa de guardar o zen e a felicidade...
que mesclaram, por alguns minutos, a absoluta paz com uma dose gratuita de adrenalina: em busca de uma solução para o longo trajeto até os templos, a amiga motorista segue a pé atrás de uma licença para a entrada do carro, já que essa amiga aqui não teria pernas para a distância. E enquanto espero sentada à beira do belo caminho...
lá vem ela, "voando" na carona de uma moto do mosteiro, bela e faceira, e um clic apressado salva, ainda que desfocado, o registro da cena.
Pé na estrada, de volta a Santa Teresa, parada obrigatória em outro almoço para alimentar todos os sentidos. O Café Haus é aconchegante, rico em detalhes fofos, tranquilo e tem um cardápio elaborado e diversificado. Aí vai uma provinha das iscas crafters e gastrônomicas do restaurante:
Toalhas de crochê cobrem as mesas da varanda em arco-íris.
No quadro com moldura em chita, a chef sugere com muito charme.
Rosas, muitas rosas vermelhas carmim, em contraste com cores fortes, faz lembrar Frida Kahlo.
E nas prateleiras, fofuras em crochê e fuxico dão o tom da identidade do lugar.
Depois da difícil tarefa da escolha, o prato que provocou suspiros: salmão, arroz negro e purê de mandioquinha.
Na mesma quadra do Café, duas lojas levam meus tostões (rsrs) e todos os espaços vagos da mala. Biscoitos, em dúzias de diferentes sabores e formas, herança da colonização italiana, são tradição na cidade, e uma perdição para uma biscoiteira de carteirinha.
Alguns dos que chegaram aqui e foram distribuídos como lembrancinha da viagem: bolo ladrão, sequilho de maracujá, biscoitinho de nata, corações amanteigados e tijolinhos de amendoim.

Na mesma calçada, a ave-símbolo da cidade dá o ar de sua graça em pedacinhos pacientemente agrupados...
e o hibisco mimetista, tímido, tenta em vão camuflar sua beleza na fachada da simpática casa.
A bagagem levou geleia e bolinhos de uva para os teresenses de coração, mal sabia eu que a região está investindo em vinhedos e produzindo vinho, além de outro exótico: o de jabuticaba. A Cantina Mattiello produz e vende os dois tipos, mas como café é vício primeiro, alguns pacotes do grão cultivado e processado lá encarregaram-se de aromatizar a mala junto com os biscoitos.Na casa com as paredes cobertas da história da família e região, em fotos e documentos, cada canto rende imagens "de revista", e escolho a janela bucólica...
pra lembrar daquela última manhã ensolarada em Santa Teresa, que rendeu ainda os últimos afagos no Pingo, amor virtual antigo...amor maior ainda ao vivo (que seu amigo gaúcho Bibi não saiba disso) ...
e rendeu também imagens legendadas assim - Sim, eu estive lá, na Sala da Lá - para dissolver a estranha sensação que volta e meia me rondava anunciando que logo, logo acordaria e estar lá, num espaço real tão conhecido pelo virtual, deveria ser alguma perturbação onírica.
Sim, a famosa bonequinha, marca da fase inaugural do saladala, mora lá...
ao pé da janela...
e em outra janela, um quarteto iluminado emoldura a outra sala, a de jantar...
com sua coleção autêntica e harmônica...
retrato de como a vida circula por todos os cômodos do lar dos Fonseca.
Sim, foi uma semana de sonho, e bem acordadas, tivemos a ventura de vivenciar uma sintonia fina e suave e confirmar que...
somos mesmo da "mesma nuvem", como suspeitamos desde o princípio e ao que mais agradeci aos céus voando de volta pra casa.
Amigos que nos acolhem e abraçam junto nossos amigos são presentes que nenhum futuro poderá levar...
Obrigada, Laély, pela amizade e por estendê-la à Jane. Obrigada, Jane, pela amizade e por estendê-la à Laély. Obrigada, Senhor, pelas amigas tão preciosas. Amém!
Que os próximos capítulos turísticos dessa turma sejam gravados aqui no Rio Grande, onde esperamos a retribuição da visita, combinado, Lá?

sábado, 6 de março de 2010

Presentes dos Reis Magos em fevereiro (capítulo 3)

Na véspera da despedida de Praia Grande, o roteiro das turistas no Espírito Santo guardava outras surpresas conduzidas por gentilezas de capixabas que deixaram sua boa-vontade, que vale ouro, carimbada em nosso coração perfumada de incenso e mirra. Chegamos ao alto do morro que abriga a Igreja dos Reis Magos, em Nova Almeida, graças à mão estendida em forma de quatro rodas de nosso anfitrião hoteleiro, um gesto sem preço que nenhum cartão de crédito pensaria em usar na sua publicidade. O Sol já se preparava para dormir atrás das montanhas, e nossa perspectiva era de encontrar o templo fechado. Mas fomos salvas pelo horário estendido do feriado de carnaval, outra bênção que nos fez rir à toa e acreditar que o crédito de tanta sintonia deveria ser mesmo dos Magos que habitam a atmosfera do lugar (histórico).
Do mirante, o mar exibe sua imensidão em comunhão com a imensidão do céu, e nessa palheta de azuis prateados, impossível não reconhecer o sagrado...

que continua banhando o olhar à esquerda pelo rio que também leva o nome dos Magos...

e funde-se ao mar bem à nossa frente (ops, às nossas costas, só no momento do clic).

O passeio ao segundo ponto turístico mais visitado no ES (o primeiro, Convento da Penha, coincidentemente foi a nossa primeira visita no estado), deu o que falar, pensar, meditar... Assim como a mandala esculpida em uma das portas da igreja, viajar exercita também a capacidade de focalizar no nosso centro, e a permitir que o imprevisível circule livre em volta. Graças a Deus, e aos gentis anfitriãos, como presente maior, giramos em harmonia com tudo e todos que brincaram de cirandar com essas viajantes.

E como a roda continuou girando, vem aí o episódio tão esperado: Eu estive lá, na cidade da Lá, na casa da Lá, na sala da Lá!

segunda-feira, 1 de março de 2010

Pouso certeiro na orla capixaba (capítulo 2)

Se olhar fotos é passaporte que nos devolve a cenas que nos tocaram, postar, com certeza, tem esse efeito multiplicado. De volta ao ninho, selecionando as quase 5oo imagens registradas pelos caminhos do Espírito Santo, minha alma se transporta para cada cantinho e situação que marcaram seu lugar no coração preenchido de gratas novidades. A memória ativada se encarrega da mágica de voltar no tempo, com direito aos cheiros, sons, gostos, canais que conectam no mesmo instante com as alegrias, surpresas, encantamentos, insights, descobertas e outras emoções que fizeram da experiência um laboratório de tantos aprendizados e diversão. Então, seguindo o roteiro organizado pela Laély, volto ao nosso segundo dia em solo capixaba, rumo ao litoral, com a promessa de temperatura mais amena. Deixamos Vitória que "fervia" em 38º, fizemos a parada para o almoço no inesquecível Ninho da Roxinha e seguimos mais um pouco, para Praia Grande, onde tínhamos pouso reservado garimpado pela nossa super guia.

Encontramos um "mar de tranquilidade" a poucos passos da praia de pequenas ondas limpas e poucos banhistas de meio de semana e muito, muito mais do que poderíamos esperar... Assim como a lua crescente que nos acompanhou nas noites à beira-mar, os cuidados e gentilezas conosco dos anfitriãos Marcelo, Adriana e Tiago cresceram a cada dia, nos surpreendendo e sensibilizando. Acolhidas e bem-cuidadas (quase mimadas), as gaúchas logo se sentiram em casa e fizeram do Canto da Lua o QG de três dias de muito sol, preguiça, leitura (sim, Laély também nos abasteceu de revistas quando nos entregou à pousada) , boa comida, boa música (o som ambiente na área externa mescla diferentes estilos que embalam os hóspedes do café da manhã ao fechamento do bistrô)...

Do bistrô namora-se o mar em dupla com a "moça" embonecada de olhar plácido que escolheu a janela para ver o dia passar.
Um convite à contemplação emoldurada pelos coqueiros carregados dos frutos que hidratam os banhistas.
Mas como paz demais também entedia as urbanas acostumadas a movimento, nas areias da Praia Grande-Fundão vale experimentar uma brincaderia de menino, sem medo do mico, vantagem de turista que está a mais de 2 mil quilômetros do seu reduto, com nenhum conhecido por perto.
E lá fomos nós recarregar a adrenalina no curto passeio a não mais que 20 quilômetros/hora, desbravando a pista só nossa, sob olhar curioso de meia dúzia de banhistas. Aventura banhada de sol a pino e regada de risos infantis, do início ao fim, para lavar ainda mais a alma.


Mar ou piscina? Separados por poucos metros, nessa fartura de opções para refrescar, por que não abraçar todas as possibilidades...
E fazer de conta que a tarde fica mais tropical acompanhada de uma cervejinha, mesmo que sejam apenas três goles para quem prefere, sempre, uma Coca bem gelada?

Suco de acerola, pão de queijo quentinho, bolo feito em casa, café novinho, ô vidão começar o dia assim...
Continuar o roteiro pelo cardápio do bistrô no almoço, lá pelas 2 da tarde, com escondidinho de aipim com carne seca...

E no grande final, se entregar ao salmão ao molho de maracujá, no jantar à luz da lua.

Os pratos são criação de Marcelo, psicólogo de formação, proprietário e administrador do Canto da Lua, estudante de Gastronomia. Além desses múltiplos dons, talentoso no ofício de bem-receber e, antes de tudo, uma pessoa que nos fica representando todos os outros capixabas, sem exceção, que nos impressionaram pela hospitalidade e gentileza incomuns.

E seguimos para Santa Teresa, para a sala da Lá, ops, para a casa da Lá, mas antes disso, uma visita à Igreja dos Reis Magos, logo, logo, no próximo post.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Fatos e fotos do Espírito Santo

Porque as palavras escritas parecem também ter entrado em férias nesses dias azuis por todos os ângulos aqui no estado capixaba, vamos de fotos-legendas, recurso reconhecidamente de preguiçoso, mas eficiente para garantir a leitura dentro da premissa aquela "uma imagem fala mais que... ", também seguindo a linha editorial da Caras e tantas outras, porque transgredir um pouco as propostas areja ainda mais esse roteiro deliciosamente imprevisível. Então, como prometido e combinado, amigos queridos do Amém e da Sala da Lá, peguem carona e dividam com a gente esses nossos momentos tão especiais, com quês novelescos, como os encontros costumam ter. A incansável anfitriã, minha querida amiga Laély, hoje tão real como amigos de toda vida, eu e minha amiga de toda vida Jane, no cenário deslumbrante do Convento da Penha (Vitória).

Nossa cicerone-motorista, cruzando uma das pontes e apontando a todo momento para as belezas sem-fim da capital, sob olhar encantado das visitantes.

A caminho de Praia Grande-Fundão, destino das turistas para três dias na beirinha do mar, parada no Ninho da Roxinha, com direito à companhia divertida dos meninos encantadores da Lá, moqueca capixaba, vista cinematográfica e ambiente de puro bom gosto.




Na próxima parada, os dias de Sol na Pousada Canto da Lua. Beijos!

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Voar pro abraço...

Foto: Guido Ferreira/Flickr
... da madrinha eu vou!!
Um verdadeiro gol de placa!
Vitória de uma amizade que começou assim (clique aqui)
E o Espírito Santo disse amém!
Na bagagem, frio na barriga adolescente e....
Encomenda doce inspirada aqui. Surpresinhasassinadas e embaladas para viagem... (O que é, o que é, Laély?)
e mudas de Pluma de Santa Teresa, para colorir ainda mais a cidade capixaba que tem o nome da mesma santa.

(Pluma de Santa Teresa: floresce em agosto e a gente jura que uma lampadinha led ilumina seu miolo potencializando a cor fluorescente. Uma maravilha sem igual!)

Prometemos dar notícias da nossa aventura, no Amém e na Sala da Lá!

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

1ª parada: peixes e colares

As férias de 20 dias foram automaticamente divididas pelo cérebro espertinho em três parcelas de três semanas, estratégia para tentar multiplicar o tempo tão esperado. Na primeira parada, três dias em Tramandaí no final de semana espichado, sob o calor inacreditável de quase ou 40º no litoral, desânimo até para fotografar. Mas meninos não se acovardam com temperaturas extremas, e brincar de pescaria foi uma ótima opção para eles que não temeram o sol. O peixinho-bebê posou para o clic e no segundo seguinte foi devolvido às águas da lagoa, sob olhar preocupado de Eric, o cuidadoso pescador. Olhando agora, o pequenino troféu do menino parece um pregador prateado enfeitando por poucos minutos os seus dias de infinita liberdade infantil.


Tainha na brasa

Na terra que faz até festa à tainha, outro amigo pescador, esse já crescido, rende-se ao comodismo, busca o almoço na peixaria e veste o avental. A churrasqueira, acostumada a picanhas e costelas, cede espaço à tainha, porque verão a rigor combina mesmo é com um saboroso peixinho assado. Se o pescador tirou folga, o assador ganha todos os elogios dos comensais instalados na mesa na rua, ao lado do trailer-casa, cenário perfeito para se brincar de casinha e não querer mais voltar.



Calor e colar
Na mochila, material para distrair as mãos e abstrair do calor, ao menos por alguns momentos. Pedacinhos de fita e viés, cordões e pedrinhas vão se juntando sem o menor compromisso, e os fios vão ganhando forma de colares. As "meninas" da tribo campista fazem o test drive ali mesmo, aprovam e levam os primeiros exemplaresE a brincadeira continua em casa, enrolando, franzindo, "torcendo", antes de tudo, para que a próxima parada seja iluminada pelo Espírito Santo, destino que nem o próprio destino poderia projetar no último verão. Mas isso é assunto, dos bons, para o próximo post, ainda esta semana...

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Salve Isabel, que salva o verão!

Raras são as qualidades do verão que consigo reconhecer. A antipatia é genética, não tenho dúvida, herança da família materna que vem envelhecendo com a mesma intolerância ao calor dos seus tempos de jovens. As tias e a mãe, algumas chegando e outras passando dos 80, vestem seus trajes de guerra nos dias escaldantes como os últimos aqui, e assim, de calcinha e sutiã ou vestido de praia curto e surrado, abanam-se e desfiam um novelo de incômodos e mal-estar que só ameniza quando São Pedro providencia uma chuva que abranda um pouco os termômetros. Junto-me ao sofrimento delas e aos seus hábitos desde criança, sentindo na pele suada que não nascemos para esse clima que nos maltratada por meses a fio. Com essa sensação de inadequação, assisto à euforia dos amantes do "sal, sol, sul" com a estranheza de um alienígena. Pergunto-me o que eles vêem de graça, e sem resposta que me convença, confiro a meteorologia várias vezes da manhã à noite. Se a notícia é de uma mudança no quadro dos bem mais de 30 graus, repasso a informação rapidinho para acalmar a turma das calorentas, e passamos então a olhar para o céu à espera das nuvens gordas e cinzas que possam botar água nessa fogueira, ou ao menos encobrir o sol e nos presentear com um dia nubladinho.
Feitas as queixas, desabafo para tentar exorcizar o bafo quente dessa primeira tarde de férias, mostro o resultado do tema de casa que me propus ao levantar na madrugada. A proposta: eleger ao menos algumas coisas bacanas do verão, dentro da linha "tudo tem seu lado bom". Missão um pouco facilitada pelo sangue de Poliana que corre fluido nas minhas veias, a primeira imagem vista foi a de um belo cacho de uvas Isabel. Agarrei-me a ela, com a nítida impressão de ser salva, afinal, quem consegue reconhecer uma qualidade, vai encontrar outras e quem sabe lidar melhor com o desassossego dessa realidade que é fato e ponto. Então, aproveitando os graus a menos da madrugada e o silêncio da casa que dormia, fui pra cozinha.

Um cesto de uvas Isabel, vindas lá de Bento, me esperava.
Na panela com um pouco de água, elas ferveram, ferveram... Depois, passadas rapidamente na peneira, a alquimia mostra o resultado: diluído em mais um pouco de água gelada, com uma colherzinha de açúcar, é o melhor suco, o preferido em disparada que faz a festa do meu paladar desde menina. Gosto ma-ra-vi-lho-so de verão... (me rendo!)
Com as cascas e sementes que ficam na peneira, vamos ao segundo momento da rendição: passo uma colher de pau com vigor até extrair toda polpa. Levo ao fogo com uma boa quantidade de açúcar (usando o olhômetro) e mexo, mexo... como uma autêntica nonna até ganhar consistência e virar geleia. O café da manhã que se anuncia com a passarinhada acordando lá fora tá garantido. A essas alturas, o perfume doce das uvas já tomou conta da casa e me pego falando sozinha: Que cheiro ma-ra-vi-lho-so de verão!

Mas faltava ainda um outro ritual que guarda o gosto inesquecível das férias da infância, minhas e também do filho. O bolo de uva era um dos primeiros itens da lista nos preparativos da mãe, e depois meus, quando virei mãe, para os dias na praia. Preparado na véspera, tinha vida curta. Metade já se ia na viagem, a outra, no primeiro lanche depois do primeiro banho de mar. Simples, mas com um detalhe que pede paciência: retirar as sementes de cada bago. Topei a parada e com uma faquinha fui fazendo a cirurgia, abrindo cada uva ao meio. Depois, a massa:
Na batedeira, 200 g de manteiga, 3 gemas e 2 xícaras de açúcar, batendo até ficar ficar uma mistura clara. Juntei intercaladamente 2 xícaras de farinha de trigo, uma de maizena, 1 colher(sopa) de fermento em pó e uma xícara de leite. No final, as 3 claras em neve. Na hora de enformar, deixei a nostalgia de lado e resolvi inventar, usando forminhas de papel (dentro de forminhas de empada). Coloquei as uvas sem sementes, passadas na farinha de trigo, no centro dos bolinhos e polvilhei açúcar cristal. Foram ao forno alto nos primeiros 15 minutos e médio até estarem coradinhos.

Enquanto me deliciava com o primeiro bolinho saído do forno, a memória gustativa, que faz milagres com o tempo, me puxava a orelha, pela voz da minha mãe que ainda hoje não deixa passar: Não se come bolo quente, menina! E minha porção rebelde, que continua esperneando com algumas sentenças, abocanhou outro pedaço, toda senhora de si.

Férias inauguradas com a madrugada produtiva, vejo o sol alaranjar o céu do dia nascido e as cigarras darem início a sua cantoria estridente, sinais evidentes de mais um dia "daqueles", e volto toda prosa para a cama no quarto refrigerado. Desligar o despertador, funcionar pelo nosso relógio, dar voz ao que nos salva: coisas muuuito boas das férias (algumas, tá bom, das férias de verão).

domingo, 24 de janeiro de 2010

A bolsa e a bengala

A bolsa amarela finalizada, motivo de orgulho inflado para essa costureira de primeira viagem comandando sua super-mini-máquina em projeto mais elaborado, é motivo também para mostrar outro acessório indispensável na sua vida. Cor-de-rosa nos últimos tempos, a bengala* é parceira fiel há quase 40 anos, uma extensão do braço, apoiando os passos, dificultados pelas sequelas da poliomielite contraída quando bebê. Revela-se então a razão por esse guarda-roupa não guardar vestidos, como comentei no post abaixo, e talvez tantas outras facetas de quem desenvolveu a habilidade manual com paixão e encontra nelas, nas mãos, um porto seguro de satisfação que quase sempre vence a frustração das caminhadas impossibilitadas pela fragilidade das pernas.

Se a trajetória nem sempre é cor-de-rosa, criar e escrever são antídotos ao veneno escuro da amargura, aprendi cedo. As doses não precisam ser homeopáticas, melhor ainda se forem abundantes, mas devem seguir a mesma regularidade com que se toma as bolinhas e soluções dos princípios ativados pela homeopatia, ou seja, em intervalos pequenos. Compulsão justificada, a doença das mãos nervosas, como diz a Cecília, do Quilts são Eternos, aqui (e acho que aí também) é curativa e abençoada todo santo dia. Os olhos benzem de luz as crias recém-criadas, a alma avaliza as escolhas e o terreno interno se fortalece com a convicção de que não, não nos perderemos por aí, em nenhuma canoa sem rumo e sentido. Temos nossas tintas, agulhas, pincéis, linhas, paninhos, botões, teclados... aff! Nosso mais eficiente GPS!A matriohska, na carona da bolsa (viu só , onde ela foi morar?), é talismã que confirma a fertilidade do universo dessa tribo crafter, compulsiva, antes de tudo pela beleza. De todos os cantos do planeta, num Woodstock virtual, a turma se aglutina num mesmo olhar extasiado pelas infinitas formas de dar forma ao que pede para nascer, e assim, assegura vida longa a nossa melhor parte, e nos faz mais inteiras. Se a manualidade é outra bengala, abraço o par em duplo agradecimento. Uma me leva até onde posso chegar, a outra me oferece as trilhas do sem-fim. E agora, na companhia de vocês, numa viagem muito, muito mais divertida e criativa. Que o cruzeiro continue embalando nossa inspiração! Amém


*Não poderia deixar de registrar os melhores elogios à Mercur, empresa pioneira na fabricação das bengalas canadenses coloridas, num mercado até então restrito ao cinza e preto. Há uns dois anos, quando me deparei com a cor-de-rosa, fui à loucura! Naquele mesmo momento ela passou a ser minha, e os olhares que atrai, ainda hoje, têm um outro tom, rosado... Hum, mas que fashion! - é comentário frequente por onde ando (com a sua ajuda). Então, amigos da Mercur, acho tá na hora de colocar outras cores nas vitrines. Os bengaleiros agradecem.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Quem não tem vestido, nem caviar...

... Recolhe a inspiração colorida do livro "A Menina e o Vestido de Sonhos", de Alexandre Rampazo, presente da Editora Larousse Júnior (um dos tantos ossos bons desse ofício de trabalhar em jornal infantil é montar uma minibiblioteca ao longo dos anos), e "aplica" na bolsa (de valores sentimentais). O tratado à delicadeza do escritor e ilustrador acordou a vontade de voltar aos tecidos, depois de uma boa temporada "circulando" entre as mandalas. Como as habilidades de costura estão muito longe de alcançar um vestido, e também porque aqui o traje é quase uniforme - calça jeans e camiseta (e um dia explico o porquê), o projeto que me abstrai e salva nesses dias de mormaço no vale é uma bolsa amarela, com ares de verão, inspirada também em outra figura que é só delicadeza: a Chris, da Chria. Longe, muito longe da pretensão de chegar perto de suas criações super elaboradas, mas com chances de me agradar.
O primeiro sinal do agrado? O passarinho azul, que pisca pra mim enquanto pesponto as pétalas para ele pousar...

Se ando vendo passarinho de tecido piscar por aí a culpa é desse menino talentoso que sabe tocar a alma das meninas (crafters, então, caem aos seus pés na primeira página!) em cada palavra e traço. Quer uma provinha?

Quem não tem caviar...

... 0riginal, fica é muito satisfeita com a versão bem mais acessível em versão chocolate da Kopenhagen, que fez a diferença no Bolo de Iogurte, receita de outro livro da Larousse (Coleção Larousse da Cozinha do Mundo), presente de Natal para o filho com direito de mãe também dar uma voltinha. Das mesas gregas, o bolo é simples, mas com uma massa tenra que vale a viagem para acompanhar o café, como conta o livro que é costume também por lá: o mais pobre dos gregos sempre tem um café para oferecer, acompanhado do ritualístico copo de água fresca.

Bolo de Iogurte

Ingredientes: 3 ovos, 200g de açúcar, 1 laranja (ou 1 limão siciliano), 150 ml de óleo, 200 ml de iogurte (usei 1 copinho), 250g de farinha de trigo, 1 colher (chá) de fermento em pó, manteiga para untar

Para a calda: 200g de açúcar, 1 limão

Modo de preparo: Preaqueça o forno a 180 graus.

Quebre os ovos separando as gemas das claras. Coloque as gemas e o açúcar numa tigela. Bata até a mistura se tornar branca e aerada.

Raspe a casca da laranja. Acrescente o óleo, o iogurte e a raspa da laranja à mistura anterior e mexa.

Misture o fermento com a farinha. Adicione-os à tigela. Trabalhe para obter uma massa homogênea.

Bata as claras em neve firme. Despeje-as delicadamente na tigela, levantado a massa para não quebrar as claras em neve.

Unte uma fôrma com 26 cm de diâmetro e nela despeje a massa. Leve ao forno e deixe assar por 25 minutos.

Prepare a calda. Esprema o limão. Despeje numa panela pequena o açúcar, 500 ml de água e o suco de limão. Deixe cozinhar por 15 minutos. Deixe esfriar e despeje sobre o bolo. (Substituí a calda por um glacê de açúcar de confeiteiro e o suco da laranja).<>