quarta-feira, 14 de julho de 2010

Com a bíblia debaixo do braço

(exercício de desapego, a velinha de tantos Natais acendeu a chaminé para ajudar a aquecer a casa gelada ontem à noite)
Não tenho religião formalizada, nem formatada. Católica de um berço pouco praticante, mas movido a "fé na vida, fé no homem, fé no que virá", um triângulo de força que nomeio de Criador, encontro-O em diversas crenças, filosofias, correntes religiosas e assim, num caleidoscópio ecumênico, procuro sustentar o vínculo com o sagrado, com o divino, com a espiritualidade.

(relicário montado com Santa Teresinha e pequenos elementos, presentes de amigos)

A pequena biblioteca da casa é vitrine dessa "salada" mística-religiosa. Os ingredientes passam pelo budismo, pelo tarô, pela astrologia, pelo taoísmo, pela cabala, pelo hinduísmo, até pelo ateísmo (para temperar os sentidos e ampliar a visão), por aspectos do paganismo, os que se vinculam à natureza e aos elementais, e pela psicologia, como caminho experimentado como paciente e comprovado como potente ferramenta para abrir frentes internas e nos aproximar, também, de Deus.

(bandeiras de oração, budistas, da loja Mãos do Mundo, em Canela, RS)

Entre os livros, um deles conquistou minha alma de maneira tão arrebatadora, que ganhou o título de bíblia. Faz por merecer o status. Por quase 20 anos vai e volta da estante ao criado-mudo, aceita ser relido da forma mais anárquica possível (às vezes um parágrafo de uma página, outro de 10 folhas adiante), responde perguntas que ainda nem formulei, pergunta o que ainda não sei responder, mas antes de tudo me acolhe, dá colo, ilumina onde há sombras, me acorda e dá corda ao que pede para florescer...

Quero então compartilhar um pouquinho do Mulheres que Correm com os Lobos, da psicóloga junguiana e contadora de histórias Clarissa Pínkola Estés, com vocês. Às que não conhecem o livro, aviso que não é leitura que agrada a todas, ou não em qualquer estação da vida, como acontece com frequência com diferentes títulos. A tal hora certa funciona mesmo nessas afinidades e distanciamentos com temas, autores, não é mesmo? Às que já foram apresentadas a ele, aprovando ou desaprovando, um convite para que nos acompanhem nessa "trilha de lobas" que quero estender em alguns capítulos do AMÉM, pinçando trechos que acredito farão bem a todas nós (e aos "lobos" também). Começamos assim:
(...) Quando as mulheres reafirmam seu relacionamento com a natureza selvagem, elas recebem o dom de dispor de uma observadora interna permanente, uma sábia, uma visionária, um oráculo, uma inspiradora, uma intuitiva, uma criadora, uma inventora e uma ouvinte que guia, sugere e estimula uma vida vibrante nos mundos interior e exterior. Quando as mulheres estão com a Mulher Selvagem, a realidade desse relacionamento transparece nelas. Não importa o que aconteça, essa instrutora, mãe e mentora selvagem dá sustentação às suas vidas interior e exterior.

Portanto, o termo selvagem neste contexto não é usado em seu atual sentido pejorativo de algo fora de controle, mas em seu sentido original, de viver uma vida natural, uma vida em que a criatura tenha uma integridade inata e limites saudáveis. Essas palavras, mulher e selvagem, fazem com que as mulheres se lembrem de quem são e do que representam. Elas criam uma imagem para descrever a força que sustenta todas as fêmeas. Elas encarnam uma força sem a qual as mulheres não podem viver. (...)
A compreensão dessa natureza da Mulher Selvagem não é uma religião, mas uma prática. Trata-se de uma psicologia em seu sentido mais verdadeiro: psukhe/psych, alma; ology ou logos, um conhecimento da alma. Sem ela, as mulheres não têm ouvidos para ouvir o discurso da sua alma ou pra registrar a melodia dos seus próprios ritmos interiores. Sem ela, a visão íntima das mulheres é impedida pela sombra de uma mão, e grande parte dos seus dias é passada num tédio paralisante ou então em pensamentos ilusórios. Sem ela, as mulheres perdem a segurança do apoio da sua alma. Sem ela, elas se esquecem do motivo pelo qual estão aqui; agarram-se às coisas quando seria melhor afastarem-se delas. Sem ela, elas exigem demais, de menos ou nada. Sem ela, elas se calam quando de fato estão ardendo. A Mulher Selvagem é seu instrumento regulador, seu coração, da mesma forma que o coração humano regula o corpo físico.

A jornada com Clarissa segue no próximo post, de mãos dadas, espero, com as lobas que circulam por aqui. Amém!

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Quem bate?

É o frio!


Que conforme a meteorologia deve desembarcar com força no território gaúcho nessa madrugada, com direito à geada e, provavelmente, ao vento minuano que até agora mantém-se recluso nessas paragens.
Bate junto uma nostalgia...
Dos meus 7 aninhos, quando o comercial das Casas Pernambucanas, assistido na TV dos vizinhos, anunciava o inverno que naqueles tempos parecia mais rigoroso. Será que tudo parece mais (bonito, cheiroso, amplo, gostoso, alegre, colorido... e também mais triste, escuro, assustador, doloroso, gelado...) na infância? Porque o inverno continua me trazendo impressões carregadas de boas lembranças, e continua me parecendo intensamente aconchegante e me envolvendo num bem-estar que me faz mais produtiva e conectada a projetos que preenchem os dias de sentido, o anúncio das frentes frias provoca um certo alvoroço por aqui. Logo começam os preparativos para curtir as baixas temperaturas que devem bater à porta, e a casa se movimenta lembrando contos de Grimm ou Andersen, com personagens recolhendo lenha, fogão com brasas, sopa borbulhando, o histórico caderno de receitas revisitado, sacolas de lã e agulhas em prontidão, mantas e cachecóis a postos na cabideiro, bolsa de água quente revisada e, para garantir pés quentinhos, meias grossas recuperadas do fundo da gaveta e uma pantufa-boneca, de flanela (como recomenda as Casas Pernambucanas) que aqueceu meu peito à primeira vista, numa loja lá em Canela.

E para reforçar o clima de lar doce lar de contos de fadas, um pequenino juntou-se à turma da casa no fim de semana, presente da doce sobrinha, sucessora no trabalho com o Sininho e nos encaminhamentos das fantasias infantis.

Fim de semana que começou com reunião de pessoas queridas, ex-colegas amigos, amigos ex-colegas, em volta de panelas fumegantes de feijoada que deram um suador à cozinheira destreinada de abastecer grandes mesas....

Mas que com as parcerias nas tarefas... Driblou até problemas com o fogão do salão de festas da amiga. E lá foi a panela passear em outra cozinha, para na volta ser ovacionada pela torcida... E finalmente ouvir-se o tão aguardado chamado: a-t-a-c-a-r!Temos fome mesmo de quê? Feijão, arroz, couve, farofa e risadas, abraços, calor dos laços bem atados pelo coração, saudade de alguns aplacada, saudade de outros antecipada...

(Mas, não adianta bater, saudosismo prematuro, que eu não deixo você entrar...)

sábado, 10 de julho de 2010

O que as princesas comem?

sobre as refeições das princesas as pessoas dizem muitas bobagens. Que uma princesa se alimenta exclusivamente de maçãs, que almoça compota de rosa, que pode se contentar apenas com o olhar de um príncipe apaixonado na hora do jantar.
Na verdade, as princesas comem como todo mundo.
Única diferença: tudo o que comem primeiro é
examinado cuidadosamente
e testado por um degustador
porque nos palácios há sempre brigas, e as disputas entre princesas se resolvem na base do veneno. Por isso elas muitas vezes comem comida fria.
Com a devida permissão de quem entende do assunto, como os autores do livro que vem guiando os posts sobre o episódio palaciano no Restaurante Bouquet Garni, em Gramado, na visita da amiga Laély ao RS, nos entregamos às luxúrias da mesa, nem um pouco comedidas. Se princesas comem de tudo, e nem sempre o menu é leve, na nossa noite de conto de fadas não precisamos nem nos deter muito ao cardápio. A escolha estava predefinida por indicação do filho, chef que fez a função do degustador e garantiu que não corríamos riscos, nem de alguma decepção, se a pedida fosse uma pierrade (variação do fondue, com bifinhos de filé grelhados na pedra aquecida por rechaud pelos próprios comensais). Princesas são curiosas, principalmente quando se trata de desvendar alquimias gastronômicas. Conclusão para justificar nossa entrega quase de olhos fechados à experiência de provar cada um dos molhos, salgados, picantes, agridoces, doces, sem nenhum receio de nos envenenarmos pela mistura dos tantos sabores, marcantes. Impossível não querer eleger o melhor e deflagrar o conflito: como escolher só um, ou só dois, ou só três? Resta um consenso: são todos com muita personalidade, confirmando que também na cozinha, como em outros universos, cada ingrediente tem seu valor. Alguns se casam com harmonia, outros brilham solitários, e saber combiná-los não é só questão de técnica, mas de ousadia, bom senso e sensibilidade de quem prepara e de quem degusta.
Voltemos ao livro: Princesas amam sorvete!
Sorvete leve à base de água,
polpa e frutos proibidos.
É a sobremesa preferida das princesas,
tanto que elas o tomam
até mesmo antes das refeições.
As receitas são deliciosas e variadas:
Sorvete de verão ou sorvete de inverno,
sorvete de bagas, sorvete de flores.
Sorvete de cardamomo,
muito cheiroso, e sorvete das bailarinas,
famoso por sua leveza.
Sorvete da noite, sorvete de uma noite,
Sorvete negro, sorvete marfim.

As companheiras ponderaram duas vezes e se renderam: vamos aos prazeres da sobremesa! Pensaram mais algumas vezes com o delicado cardápio (que reproduz em aquarela a fachada do restaurante à beira do Lago Joaquina Bier) em mãos para decidirem compartilhar o sorvete de uma noite.Enquanto elas atacavam, eu julgava que passar pela tentação doce era coisa de princesa vacinada, por momentos, do pecado da gula, mas mal sabia o que o pedido de um simples cafezinho iria me apresentar.

Um luxo para arregalar os olhos de qualquer princesa, e de súditos também! Para acompanhar o café, tuile, lembrando uma luminária, chocolatinho com a logotipia do Bouquet Garni e... pétalas de rosas caramelizadas. Sim, uma receita digna de constar em qualquer livro que se proponha a desvendar os mistérios "princesísticos", mas que pensando melhor talvez precise mesmo ser resguardada a sete chaves para não roubar-lhe o encanto. Dividimos irmamente a iguaria e saboreamos como um ritual sagrado, igual à criança pequena que se delicia com as novidades do mundo e assim vai (des)cobrindo os sentidos. Sentidos acordados pela beleza de tantos detalhes, do primeiro ao último movimento do serviço...

projetada em cada ângulo do "palácio de cristal"... com seu teto de vidro exibindo a araucária iluminada ... e seus ambientes mesclando também madeira e pedra, numa atmosfera provençal de sonhos.

A noite memorável se encaminhava às 24 badaladas quando as três princesas, alimentadas de muito do que faz a alma brilhar, se despediram do capítulo que por anos recorreremos para reavivar a convicção de que a vida reserva lindas surpresas, mais prováveis quando damos uma "mãozinha" ao destino e um "pezinho" uns aos outros para alcançar estados de graça. E em estado de graça, a tempo da carruagem não virar abóbora e congelarmos na volta a Canela, o registro para o post e a posteridade do nosso jantar estrelado, lembrando a todas as "meninas" a sentença da Princesa Efêmera da China:


Uma vez princesa, sempre princesa!

(Ainda que em certos dias as bruxas nos cerquem para nos convencer de que somos da sua turma, e façam mil convites venenosos para trocarmos o palácio iluminado pelo porão sombrio, nós temos a força da beleza vivida, antídoto para a amargura, elixir para recuperar tempos perdidos e sonhos adormecidos. Amém!)

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Uma noite de princesas (efêmeras?)

Princesa Efêmera da China
Faz parte de uma dinastia em que se é princesa somente por um dia.
Princesa muito bonita, graciosa como uma libélula, leve como o ar.
A vida de Efêmera dura apenas algumas horas:
de manhã ela acorda em seu casulo, depois cresce bem depressa até voar com as próprias asas. Podemos observá-la no jardim, aspirando o perfume das flores, usando vestidos magníficos. Ela rodopia sob o sol brilhante, ouvindo os gracejos dos príncipes que lhe fazem a corte, vestidos de pesadas armaduras.
Então anoitece, seu reinado se acaba e, com um bater de asas, ela desaparece na noite iluminada de vaga-lumes.
Incorporando a história do deslumbrante livro "Princesas Esquecidas ou Desconhecidas", de Philippe Lechermeier e Rebecca Dautremer, Editora Salamandra, vamos dar seguimento a ela estendendo pela noite a vida da personagem na pele de três princesas de carne, osso e mente fértil de imaginação. Assim nos sentimos, Laély, Jane e eu, no jantar de despedida da serra, em junho, como a amiga visitante mostra no seu post de hoje. Quer entrar no nosso conto de fadas? Vista sua alma de encantamento, vá até lá, na sala da princesa lá, veja os primeiros capítulos, e volte aqui amanhã, para os desdobramentos, combinado? Bons deslumbramentos!

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Desabotoando...

(google imagens)
... um vínculo de 20 anos, trabalho que se confundiu com brincadeira, que se abasteceu nas vivências da minha infância e fez da minha criancice a matéria-prima para a criação de quase 900 edições do caderno infantil gestado no coração e batizado de Sininho, um filhote que virou mascote do Jornal VS ...

... a semana começa com a vida mudada, a agenda com estranhos clarões, a intuição sinalizando lampejos do que virá, sem pressa nem atropelos... E como mãe de filho crescido e bem encaminhado, com orgulho de missão cumprida, despeço-me devagarinho de um ciclo de dedicação constante e inesquecíveis gratificações. Ouço o conselho da sábia tia Dada: "Muitas vezes, é mais sadio desabotoar uma situação ao invés de cortá-la". Desabotoo um grande amor para garantir-lhe a eternidade. E numa gaveta forrada de papel de seda e perfumada de tutti frutti, a menina que mora em mim abraça o menino que pelos caminhos da fantasia me fez crescer e juntos asseguram que seguem comigo pelas trilhas vívidas da memória. Em paz, fica a certeza de que tudo está no seu lugar, que os "sininhos" continuarão a tocar e... a nos inspirar. Amém!

sábado, 3 de julho de 2010

Sol de primavera...

(em pleno início de julho, o sábado no Sul se iluminou da luz de setembro, das cores da natureza e da energia prematura de renascimento, quando, na verdade, as sementes continuam dormindo o sono da germinação, gestando quietinhas a próxima estação)
... abre as janelas do meu peito.
(Cerejeira em uma das ruas bucólicas da simpática cidade de Morro Reuter, RS, no comecinho da subida da serra, hoje à tarde)
Um domingo iluminado a todos! Amém!

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Um santo remédio...

Muitas vezes basta ser:
colo que acolhe,
braço que envolve,
palavra que conforta,
silêncio que respeita,
alegria que contagia,
lágrima que corre,
olhar que sacia,
amor que promove.
(Cora Coralina)
Tudo isso condensado numa só palavra: afeto. Afeto em doses generosas, como os que recebi nos últimos dias de amigas que fiz por aqui e que se fazem "curandeiras" à distância, grifam as palavras de Cora com a força das prescrições seguidas à risca. As Pílulas Poéticas e o lápis são só uma amostra (grátis) da caixa de surpresas que desembarcou ontem na minha porta encaminhada por uma enviada especial de alguma
falange que me protege. Lu Pietra , porque também "não vivo de ser arteira, mas ser arteira me ajuda a viver com arte e sã", nosso encontro, guiado pelas afinidades, é sim alegria que não se compra em farmácia, e pelo qual sou muito, muito grata. Namastê!

Gratidão na mesma dose à Helena, na sua demonstração de carinho que faz pensar que não só os quilts, but friends are forever, que leu meus desejos no Flickr feito Mamãe Noel e tratou de atendê-los com uma overdose de surpresa. O colar com a belíssima mandala é criação da Ana Vergara, sua professora de bordado. Para ver muitos outros, um mais lindo que o outro, clique aqui.

E porque ser mimada não requer prescrição (mas pode sim gerar dependência ...rs), o "complô " das amigas "presenteadoras" reuniu também a carioca Teresa, sempre por aqui com seus comentários tão doces, que me trouxe para perto lembranças curativas da minha infância pelos postais retrôs da cidade maravilhosa, em quadrinho trabalhado por ela.

Ah, a vida é boa sim, Cora, e benditos são os gestos que reforçam a imunidade da alma e nos movem a fazê-la sempre melhor. Que dediquemos parte do nosso trabalho semeando gentilezas, remédio que cura em mão dupla: a quem pratica e a quem recebe. Amém!

sábado, 26 de junho de 2010

Chove lá fora...

Crochê
E aqui faz tanto frio...
Crochê
Me dá vontade de crochetar...
Crochê
Em círculos, casando cores sem a preocupação de combinar na mandala intuitiva...
Crochê
Enfileirando pontos altos até alcançar o diâmetro do assento do banquinho, herança da tia Dada...
Crochê
Para vesti-lo a rigor para o inverno que convida ao recolhimento e...

Crochê
a um chá ou café quentinhos (fico sempre com a segunda opção) com biscoitos (vindos de Santa Teresa-ES).
Biscoitos
Um ritual que tece juntos o prazer de renovar o antigo e o entusiasmo de resgatar essa força ancestral de crochetar que num "passa passará" vai reunindo as gerações de mulheres num único fio, em laçadas de afeto, e num mesmo refrão-convite: "Passa, passa, passará/quem detrás ficará/a porteira está aberta para quem quiser passar".
A todos, um fim de semana aquecido pelo o que nos faz bem. Amém!

terça-feira, 22 de junho de 2010

Pagando mico e dando o bolo...


Para Laély, que nessa data querida estreia idade nova, logo após os "5 dias com ela" (vejam post da aniversariante aqui) na minha casa e na região que mais gosto do Rio Grande, a serra. Amigos de perto, todos, já ganharam bolinhos de aniversário preparados por essa boleira que desde criança adora esse ritual da cozinha. E quem diz que só porque estamos a 2 mil quilômetros de distância não poderia estender a mania de presentear com doçuras à amiga recente, que mais parece amiga de infância? Lembrando do seu comentário no post anterior, e as palavras do mestre Saramago: "Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória", investi em nova tentativa de desvendar os segredos do bolo de mamão da Pousada Aldeia dos Sonhos, às pressas ontem à noite, para oferecer-lhe um remember gustativo daquelas manhãs ensolaradas.
Bolo de mamão para Laély
Dizem que a intenção que colocamos em nosso trabalho, seja ele qual for, é ingrediente poderoso que se manifesta, cedo ou tarde, no resultado. Então, só posso creditar ao enorme desejo de finalmente acertar a tal receita para presentear minha madrinha virtual o fato de que o bolo, dessa vez, deu certo! Mesmo faltando aveia suficiente e açúcar branco na despensa, a massa chegou perto da textura da original, devendo só na coloração, meio esmaecida (acredito que precisava de um pouquinho mais de bicarbonato de sódio). Já era "amanhã" quando a surpresa saiu do forno, linda e cheirosa. Já era o dia da Laély celebrar a vida renovada, e então improvisei uma vela de castanha-do-pará, de acordo com o berço nortista da aniversariante, acendi, o perfume do pavio gorduroso invadiu a noite gelada, e enquanto fotografava procurando a melhor luz, sabia que essa mesma luz já estava chegando lá, abraçando a Lá, teletransportado pelo infalível canal do afeto.
Mas para o presente estar completo, precisava ainda atender-lhe um pedido, também revelado no comentário do último post. O que não se faz pelos amigos! Arrisco minha reputação (rsrs), mas ganho mais um pedacinho do coração de marshmellow da amiga - ponderei antes de postar a última foto. Aí então estamos nós, em momento de "mulher de serventia", como conta a Helena aqui, na intimidade de uma manhã na minha cozinha (bagunçada) , às voltas com o bolo de mamão. Entusiasmadas com a receita que mal sabíamos nós quanta frustração geraria, tão afoitas para colocar as mãos na massa que encaramos a aventura com os trajes de gala da noite e os cabelos de acordo com eles. (rsrs)
Confissão - A foto foi envelhecida no editor de imagens com dois propósitos: refletir o clima "vintage" daquele momento inesquecível de parceria e proteger as "moças" dos detalhes, porque se desapegar-se da vaidade é aprendizado nobre, salvaguardar a auto-estima é exercício diário de bom-senso... (rsrs)
Se quiserem arriscar (vale a pena!), aí vai a receita rebatizada e corrigida:
Bolo de aniversário da Laély
No liquidificador: 2 xícaras de mamão, 3 ovos, 1/2 xícara de óleo de canola, 1 xícara de açúcar mascavo, 1/2 xícara de açúcar refinado. Despeje a mistura em uma tigela e acrescente: 1 xícara de aveia flocos finos ou médios, 2 xícaras de farinha de trigo peneirada junto com 1 colher (sopa) de fermento em pó e 1 colher (sobremesa) de bicarbonato de sódio. Misture bem e junte 1 colher (sobremesa) de canela em pó, 1 colher (café) de cravo-da-índia moído e 1 colher (sopa) de casca de laranja ralada. Despeje a massa numa fôrma pequena, untada e enfarinhada, e leve ao forno em temperatura alta nos primeiros 20 minutos e média nos outros 20 minutos.

Feliz aniversário, feliz renascimento, querida!

domingo, 20 de junho de 2010

Na Aldeia, o dia começa assim....

Café da manhã da Aldeia dos Sonhos
Com as iguarias produzidas na cozinha da pousada para o café da manhã que recepciona os hóspedes com um desfile de bolos, tortas, pães, frutas, um jeito doce e delicioso preparado e servido pelos proprietários, que acorda o apetite e convida a estender a refeição sem pressa, mesmo que lá fora o Sol lembre que a serra nos espera para desbravá-la.
Café da manhã da Aldeia dos Sonhos
Estamos em miniférias, e se me falta o hábito no dia-a-dia de sentar numa mesa sortida para começar a jornada com uma rotina saudável, brinco de ser pessoa comprometida com a alimentação regrada e cumpro o ritual do início ao fim. Um sacrifício (rsrs) que dá partida com as frutas porcionadas, os cereais, iogurtes, sucos, passa para o café com leite reabastecido mais de uma vez, e segue com os pães (destaque para os cachorrinhos-quentes de uma massa tenra e verdadeiramente quentinhos), sem esquecer em nenhum momento de reservar um bom espaço para o grande final: os bolos de laranja, coco, mamão*, banana, a cuca cremosa e a estrela do bufê: a cheesecake de amora.
Café da manhã da Aldeia dos Sonhos
Enquanto nos entregamos a essa orgia de sabores, vamos tentando identificar os ingredientes e modo de fazer das receitas, até que... bingo!: ao menos uma delas, a cuca cremosa, é velha conhecida e frequentadora assídua do meu forno, conto entusiasmada à Laély, já propagandeando o jeito vapt-vupt de prepará-la. Sinto-me salva. Quando a saudade desse momento bater à porta do coração, posso recuperá-lo indo pra cozinha juntar farinha, ovos, leite condensado... e enquanto a cuca assa, trazer o cenário da Aldeia e das companhias para a linha imaginária e, depois, curtir o faz-de-conta de voltar no tempo enquanto saboreio a lembrança e o doce caseiro.
Antes disso, aproveito uma manhã em que a visita querida ainda está ao lado para mostrar a ela a confecção da receita, já pensando em repassá-la a vocês. Aprovada por seu paladar de formiguinha, Laély não pensa duas vezes em levar uma porção da cuca preparada a quatro mãos na sua mala de bolinhas. Soube que chegou meio desestruturada, mas mesmo assim foi devidamente degustada por sua turma de meninos.
Cuca cremosa
Vamos à receita?
Ingredientes da farofa: 100g de manteiga sem sal em temperatura ambiente, 1 xícara de açúcar, 1 colher (sopa) de fermento em pó, 3 colheres (sopa) de maisena, 1 ovo, 2 1/2 xícaras de farinha de trigo, 1 colher (sobremesa) de canela em pó
Ingredientes do recheio: 1 lata de leite condensado, 1 lata de creme de leite, 2 latas de leite, 2 gemas peneiradas, 3 colheres (sopa) de maisena
Modo de preparo:
Prepare a farofa juntando todos os ingredientes até formar uma mistura granulada. Reserve.
Para recheio, misture também todos os ingredientes e leve ao fogo mexendo até ficar cremoso.
Unte um refratário e distribua metade da farofa, o recheio e o restante da farofa.
Leve ao forno em temperatura alta por cerca de 30 minutos ou até a farofa ganhar um dourado leve.
Variações: acrescente frutas fatiadas (banana, maçã, morango) entre a primeira camada de farofa e o creme.
Cuca cremosa
Enquanto os capítulos da estada da Laély no Rio Grande vão sendo repassados aqui, e os dias partilhados começam a ganhar aura de passado, lembro desse conselho e deixo-o registrado como uma bela receita para temperar a vida:
Se sua vida não tem saudades, crie-as. Viver sem este sentimento é o mesmo que cozinhar sem sal (ou açúcar)... O sabor vai embora. (Saul Brandalise). Amém!
*O bolo de mamão continua em laboratório, testado aqui e lá, na Sala da Lá, enquanto buscamos desvendar a alquimia dos ingredientes, que até então só resultou em estranhos pudins. Como teimosia é do nosso feitio, assim que acertarmos a mão repassaremos a receita, seus segredos e estaremos mais em paz (rsrs).