segunda-feira, 26 de abril de 2010

O que faço de antigo

Desde que a Vivianne, do De(cour)ação, lançou a pergunta E você, o que faz de antigo ?, volta e meia me pego reconhecendo os hábitos que vêm de longe, voltando nos anos e encontrando em mim a porção da minha mãe, nas lidas da casa, na condução dos dias divididos entre o trabalho e as tarefas domésticas. E é com gratidão que percebo que muito das pequenas coisas que me fazem bem, e que temperam a rotina com uma dose preciosa de satisfação, tem sua origem lá, na casa dela que um dia foi nossa, e no seu jeito entusiasmado de lidar com o dia-a-dia. Do ganha-pão no seu salão de beleza, trabalho tantas vezes exaustivo, à sua cozinha sempre ativa, entre agulhas de tricô e crochê nos pequenos intervalos, reservando um tempinho para regar o jardim sempre florido... hoje tenho convicção que foram esses os ingredientes que a salvaram quando o caminho foi despenhadeiro e os ciclos de perda prematuras desafiaram sua capacidade de retomar o gosto pela vida.
É preciso estar atento e forte anunciava Gal em alto e cristalino som naqueles tempos... Atenta ao que me fortalece, sigo os rituais experimentados na infância perseguindo os prazerezinhos milagrosos, como me traz o cheiro do feijão no fogo nas segundas-feiras, saudando a semana que começa, e esses outros que reencontrei no sábado.
Preparei conservas, tal qual faziam a mãe, tias, vizinhas, avó, e só lamentei a falta da folha de parreira para cobrir os pepinos, como manda a tradição. Enquanto esterilizava os vidros (que se avolumam no armário à espera de uma customização, talvez como a Susi, do Copy & Paste, mostrou ontem aqui), não contive uma série de pensamentos rasos, trocadilhos baratos e metáforas evidentes a partir da perguntinha que não queria calar: o que nos conserva?
Um passeiozinho com menos de 50 quilômetros, em direção à serra, é receita certeira para conservar ou recuperar meu humor. É assim desde criança, quando muito lá de vez em quando, num belo domingo o pai convidava para tomar café colonial em Morro Reuter. Numa época em que a mesa era coberta por iguarias verdadeiramente coloniais, nossos olhos meninos brilhavam por aquele desfile de pães, schmiers, nata, linguiça, bifinhos e, os mais esperados, bolos, cucas e tortas... Na volta, a sagrada paradinha para as compras na banca dos colonos.

Hoje, abro mão do café, pelo exagero de variedades e, em muitos, com pouca qualidade, mas não queira passar corrido pelas tendinhas, daí conhecerão o tamanho que meu mau humor é capaz de alcançar (rsrs). Na verdade, pra mim o melhor do passeio está ali, entre verduras fresquinhas, fruta colhida há poucas horas, legumes sem padrão de tamanho (ando agoniada com essa necessidade de padronização dos urbanos), ovos com gema cor-de-laranja, feijão tenro, mel, pinhão, e baldes onde perco o bom senso e saio feliz da vida com uma braçada: as flores antigas, em buquês fartos, misturando as espécies que só encontro lá.
Adálias repolhudas, pesadas, que só se sustentam bem juntinhas, uma apoiando a outra...

E as zínias, com suas cores da palheta de Frida Kahlo, iguais às cultivadas no Sítio de Monteiro Lobato...

misturadas às camélias, tão antigas, tão injustamente fora da moda, tão lindas quanto as rosas, que me lembraram este post aqui do Alexandre Mauj Gonzalez, do Lost in Japan. Estas vieram no ranchinho e estão ao meu lado, as outras foram distribuídas.
Vieram também um galhinho e uma casca, para lembrar da surpresa que a parada nos reservou: um voo rápido e majestoso de um dos dez tucanos que costumam alimentar-se das frutinhas da árvore que abriga a tenda, como nos contou o agricultor. Extasiada, quis fotografar, mas não registrei nem o rastro das cores vibrantes da criatura incrivelmente veloz com todo aquele tamanho.

Os frutos da caneleira e a casquinha de canela, que precisa secar, para dar sabor a algum doce. Quem sabe uma compota de fruta (goiabas, abundantes nessa época), como minha avó gostava de exibir, em vidros hermeticamente fechados por anos a fio, enfileirados na prateleira da cozinha, enquanto nos perguntávamos por que tanta espera, quando, meu Deus, seriam abertos para nos lambuzarmos com os intocáveis doces em calda .Pelas mãos que semeiam e colhem dia após dia, um presente espontâneo, daqueles que fazem a gente querer voltar para continuar a conversa mansa e tão rica de aprendizados para quem sabe tão pouco sobre as coisas da terra.
E depois do passeio, no domingo chuvoso, ainda no clima de dona de casa prendada, com cesto de fitas e linhas no colo e notebook ao alcance dos olhos e das mãos, porque estilo retrô de ser tem seus limites, terminei a camiseta, hoje fotografada na sobrinha, primeira a encomendar sua Alice, toda faceira.





Se você também quer vestir a camiseta rumo ao País das Maravilhas, a dupla Alan e Rosana anuncia: resolvemos encarar a empreitada e logo novos modelos estarão por aqui, à venda.
Uma semana farta de pequenas e grandes maravilhas a todos! Amém!

23 comentários:

Fala Mãe! disse...

Rosana querida, agora que eu vi que fofa a camiseta da Alice!!!
Eu adoro conservas, o gosto do pepino hum... e conservas de doce então...minha mãe também faz algumas. Lindas as fotos das redondezas do seu lar, me desperta a vontade de um dia pousar por aí, sou apaixonada pelo RS, mas nunca fui a São leopoldo..> Me encantei com essas adálias!!! Post lindo como sempre! gde beijo

Cacau Gonçalves disse...

Uau!

Que primor de postagem! :-)

A viagem ao passado baixou por aqui tb! Fiquei matutando que com minha mãe aprendi os artesanatos e com minha avó paterna os quitutes e tb o croché e o tricô. Tb várias coisas "antigas" fui aprendendo por mim mesma, já que sempre as apreciei. E hoje em dia, com tantas modernidades, creio que só o fato de gostar de cultivar minhas ervas no quintal, cozinhar em casa e fazer alguns trabalhos manuais já me torna muito antiga...rs A maior parte das mulheres da minha idade que conheço mal sabe fazer um bolo! Muitas se dedicaram tempo demais a carreiras profissionais sólidas ou algo do gênero. Eu, graças aos deuses de todos os panteões, perdi menos tempo com estas bobagens (hahahahah! serei apedrejada pelas feministas! rs)

beijos, minha irmã!

rosana sperotto disse...

Cynthia, querida, então temos que pensar nesse pouso aqui, hum?! Apertando, damos um jeito de abrigar a família "francesa" (rsrs) Beijo, e tô aqui torcendo pra que Matheo faça as pazes com o sono, tá?

Cacau, minha irmã, elas (as feministas) que não se atrevam a se meter com a gente... Tenho uma bengala cor-de-rosa poderosa (rsrs)! Brincadeiras à parte, também agradeço todos os dias aos deuses por não ter me desviado do que realmente me faz mais inteira e feliz. Obra em boa parte das mulheres que nos antecederam, de outras que formaram nossas matrizes e das que hoje fortalecem esse traçado pelas afinidades. Obrigada por fazer parte dessa turma do presente! Beijo grande!

Dorinha Junqueira disse...

Acho lindo esses vidros de conserva, acho q fica tão bonito...

amiga,obrigada por me visitar, voltei e aos poucos vou contanto as novidades..muito bom te ver no meu cantinho!!! beijos beijos

Rosana Remor disse...

Rô, faço muitas coisas que minha mãe fazia e ainda faz, ás vezes até acho graça!!!Acho que meus filhos farão o mesmo... Amei a camiseta!!Passa no meu blog, tem um selinho para você!!Beijos!!

Taia Assunção disse...

Que lindo post, ultimamente quase nada faço de antigo. A vida não tem me permitido esses pequenos prazeres. Dentro de um avião a cada 60 dias, corro de lá para cá tentando dar atenção a um e a outro. Conservas de pepino nunca foram as minhas favoritas, mas me fartava em comer o doce de figo ou o de abóbora com coco que mamãe ainda hoje faz para nos esperar. Fazem anos que não como cuca com chimia, nem mumú, jeito especial esse de vocês sulistas falarem. No MT temos grandes influencias dessa terra. Amei as flores e a camiseta. Qualidade de vida é tudo. Beijocas!

Cecilia e Helena disse...

Rosaninha, obrigada pelo comentário carinhoso sobre a minha Helô lá no blog. Tô num corre-corre louco, mas já já volto pra ler esse seu post maravilhoso.
Beijos mil
Helena

Taia Assunção disse...

Tem selinho para você lá no blog. Beijocas!

Alexandre Mauj Imamura Gonzalez disse...

Oi Rosana. Antes de tudo eu peço desculpas por não ter visitado antes seu post. Acabei de clicar em "Parar de seguir este blog", para em seguida me inscrever novamente. Não sei o que acontece, ando recebendo posts com muito atraso dos blogs dos amigos.
Acho que agora vou receber sem atraso seus excelentes posts, que gosto muito!

Eu te entendo profundamente. Moro ao lado de umas montanhas lindas, serra...ar puro e muito verde. E me sinto feliz ao ter contato com a natureza.
Tb gosto muito dessas "flores antigas". Antigamente no Brasil o pessoal gostava tanto de enfeitar a casa com flores, planta-las com carinho... tudo lindo.
Hj tá tudo cada vez mais digital, frio, sem vida. Triste. Flores parece que perderam seu encanto, são coisa rara vê-las nas ruas, não é? Ainda bem que japoneses são vidrados em flores, aqui tudo é sempre muito florido, mesmo no inverno.
E o bonito é tudo sem padronização, ao natural, não sei pq tudo tem que parecer feito em série!

Me deu uma saudade da minha avó... os doces em compota, as pimentas e conservas q ela fazia e a gente devorava! rs... o fogão a lenha do sítio, os bichos, banho no riacho...

Isso que é um mundo feliz, não é?

Obrigado MUITO pela referência, eu fiquei muito feliz, de verdade.
bjos, bom dia p vc

Ana Matusita disse...

Sabe que tem horas em que acho que sou de antigamente e caí aqui por acaso?
Aí, penso no blog, na minha intensa vida virtual e percebo que sou a pessoa errada, no lugar certo!
Beijo,
Ana
ps: vc mostrou as minhas flores favoritas, tão raras de se encontrar nas lojas: zínias (ou capitão-do-mato, por aqui) e dálias. Preciso tentar plantá-las novamente!

rosana sperotto disse...

Oi, Dorinha! Que alegria de ter de novo por aqui! Beijo, querida

Rosana, querida, obrigada pelo selinho. Logo postarei, tá?

Taia, soube das boas notícias aí! É, aqui mumu é o genérico de doce de leite, imagino que engraçado deva ser para os de fora. Obrigada pelo selinho. Beijo

Ô Helena, adorei o Rosaninha! Fazia tanto tempo que ninguém me chamava assim... Beijinho


Alexandre, que bom que não desististe do AMÉM!! rsrs Que bom também que gostaste do post em parceria. Achei até engraçado quando olhei para os baldes de flores, vi as camélias e imediatamente lembrei de ti. Beijo

Oi, Ana! Tua presença é sempre festejada por aqui! Fico toda boba...Olha, aqui as zínias são chamadas de zabumbas, são de fácil cultivo e duram bastante no canteiro. As dálias, nunca plantei, mas adoro também. Pois é, acho que somos mesmo meio andróides (rsrs), misturando sementes e note numa mesma... mas é tão bom, não é? Beijo, querida

Cris Rosa disse...

Ai,ai Rosana passou um belo filme pela minha cabeça lendo seu post. Adorava as tardes com a minha vó, fazendo doces, cuidando do quintal(horta), comendo moranguinho recem apanhado!!!mas vamos parar se não não acaba mais as lembranças...
Adorei mesmo seu post!
Bjkas

Eliene Vila Nova disse...

oi amiga
que postagem inspiradora, fiquei muito emocionada, lembrei de minha infância e eu sou apaixonada por tradições, lembranças de épocas que não voltam mais.
você foi perfeita.
lindas imagens.
desculpa por eu ter adado tão ausente, mas estav sem computer e agora problema resolvido, estou visitando os amigos queridos.
espero que não tenhas me esquecido.
beijos
um dia abençoado

Laély disse...

Ô, Rosana...fiz uma vigaem contigo: da sua infância, na cozinha da mãe, à cozinha da sua maturidade.
É por isso que eu me indigno, como lhe expliquei por e-mail, de ver que tem gente que escreve e não é lida e outros que são lidos e não escrevem nada!
E olha, que eu nem gosto de legumes em conserva! Prefiro-os frescos, mesmo, mas acho que é porque minha mãe não nos passou esse hábito.
Beijo!

rosana sperotto disse...

Oi, Cris, que bom que pegaste carona nas minhas lembranças. Moranguinho recém-colhido, todo vermelhinho, acho que nem lembro mais o gosto... Beijo!

Ô, Eliene, impossível, de verdade, te esquecer... Fiquei contente que tenhas resolvido a encrenca com o computer. O note é também um brinquedo novo pra mim, mas já não lembro, e nem quero, como era viver sem ele (rsrs). Beijo grande!

Laély, tô aqui matutando sobre a questão em si. E, olha, nem um pouco modesta, este é um daqueles posts que realmente orgulhei-me da carona dada aos meus amigos queridos. O papo segue... Beijo, querida!

Erika disse...

Rosana, eu tambem adoro essas coisas de antigamente, adoro conservas e adoro dálias...quanto à carteirinha lá do blog, fique à vontade. Ela é muito fácil de fazer e um presentinho bonito e útil, né?
Beijocas e bom fim de semana!

Fabiano Mayrink disse...

Rosana, o padrao desordenado dos legumes do campo retratam que sao organicos, mais concordo com vc rs as vezes o padrao faz falta,

ja ia te pedir de presente sementes de canela para eu plantar mais percebi que nao sao do seu quintal...

a blusa que voce fez ficou um encanto, eu fui ver o filme da Alice semana passada e a frase que nunca vou esquecer, é, disse Alice "os lucos sao os melhores" bom acho que é isso rs

um abraço!

Moana Mayrink disse...

Rosana!! Sim quero, vou adorar o presente!

Fabiano Mayrink disse...

Rosana, eu mandei um comentario para voce so que foi no nome da minha irma, agora sou eu o Fabiano

Eu vou adorar receber de presente as sementes de canela!!

Fabiano Mayrink disse...

ps: Rosana voce sabia que as folhas da canela dao um cha muito gostoso!

Fabiano Mayrink disse...

Bom dia Rosana! meu aniversario é dia 26 de maio rs!

vera disse...

que blog lindo ! ondas positivas por aqui :-)

Léia Cook disse...

Eu tb fazia conservas...faz tempoooo, mas me deu saudade do ritual. bjsss